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sexta-feira, 30 de abril de 2010

Cinema turco - diferentemente belo

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Diferente de tudo que vi em quase quarenta cinéfilos anos, “Três macacos” (Üç Maymun, Turquia, 2008) eviscera-se numa estética da feiúra – abandonando o eufemismo do título, o filme é feio, sem viço, umas vezes grotesco, outras com vestígios kitsch... Mas é também surpreendente, intensamente hipnótico, desconcertantemente pesado.

É, quanto ao mais, pura arte.

A obra possui dinâmica própria; o recurso do plano-sequência é ora privilegiado sob a forma de cenas longas e silenciosas, ora subvertido numa fragmentação perturbadora. Detalhes factuais são desimportantes, quando não absolutamente ignorados. O desespero e a solidão se estampam tanto nos sobrecenhos pesados, e nas marcas profundas das rugas, e nas expressões leitosas de cada olhar, quanto no céu carregado da última cena, arauto de tenebrosa tempestade...

E um céu tempestuoso pode ser surpreendentemente belo...
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quarta-feira, 28 de abril de 2010

O Estranho Caso dos Frangos Suicidas

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(Inspirado em BAGNO, Marcos. A Língua de Eulalia, Contexto, 2008)


“Abate-se frangos”, diz a plaquetinha de madeira pendurada junto ao portão; “Vende-se hortaliças frescas”, esta lá, mais à frente, na entrada de outra casinha humilde. O homem – senhor distinto, letrado, adepto do bom e velho formalismo gramatical – regressa à pequena cidade natal depois de longa ausência; à visão daqueles ‘erros crassos de português’, balança a cabeça, desdenha e segue pela ruela bucólica e poeirenta.

Entra na vendinha de secos e molhados para um dedinho de prosa. Sente-se feliz com o trescalo do queijo curado, dos grãos em caixotes, do paio defumado pingente do teto. Saboreia aqueles aromas atávicos a despertar memórias quando percebe, espalhado pelo estabelecimento, uma multidão de novas plaquetas de anúncios.

Junto ao balcão, um aviso: “Aceita-se encomendas de docinhos”; noutro canto, um papelão recortado ao modo de placa: “Conserta-se panelas”; mais adiante, nos fundos: “Prega-se botões”... Como que ofendido pelas imprecações gramaticais, o homem ensaia uma crítica, mas percebe o ar ameaçador dos frequeses e dos vendedores... E o povo todo da venda começa a caminhar lentamente na sua direção... Ele recua, assustado, enquanto descobre outras placas.

Ali, meio escondida: “Destrói-se velhas gramáticas”; acolá, em letras vermelhas garrafais: “Extirpa-se formalismos gramaticais”; e “Elimina-se purismos linguísticos”; e “Aniquila-se faladores pernósticos”, e outra, e mais outra, e as gentes fechando o cerco, lenta, decididamente... E é quando ele acorda suando frio do seu pesadelo linguístico!

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O velho dilema sobre a correção do ‘vendem-se casas’ em vez de ‘vede-se casas’ é questão ainda não resolvida pelos gramáticos. Mas o povo (leia-se, o falante) já encontrou a solução.

Na língua portuguesa, a ordem sintática natural é sujeito-verbo-objeto – SVO. Ocorre que, de acordo com a ordenação gramatical, que arbitrária e artificialmente atribui à partícula ‘se’ dos exemplos mencionados o papel de agente da passiva, esta ordem natural é subvertida em determinadas orações, como no exemplo:

Aqui se falam muitas línguas.
                |                 |
                    verbo             sujeito
De início, tudo certo, uma vez que o verbo está em perfeita concordância com o (suposto) sujeito... Não é?... (e antes de prosseguir, note-se bem que na tal voz passiva a ordem VS pretende-se mais elegante do que a escorreita e despretensiosa forma ‘Muitas línguas são faladas aqui’...).


Não, não é. Acontece que é mais comum de se ouvir e falar – precisamente porque soa mais natural que a forma “culta”, com seu suposto e pretensioso sujeito invertido – a seguinte forma:


Aqui se fala muitas línguas.
        |        |              |
     sujeito    verbo        objeto
E esta é a razão pela qual o falador típico do português insiste – natural e espontaneamente – na forma verbal singular em tais construções frasais: é mais natural, é mais espontânea, é a mais comum.


“Mas é um erro!”, retrucaria, mais uma vez, o raro leitor. Aí, depende do referencial. A se considerar o pressuposto gramatical tradicional, sim, seria um erro. E qual seria esse pressuposto? De que a partícula ‘se’ jamais poderá exercer a função de um sujeito... Mas, isso, é no latim!


Herdamos esta ‘regra’ – e continuamos a cultuá-la nas gramáticas tradicionais – de uma língua que, embora seja mãe do português, e não obstante a importância de se conhecer a origem do próprio idioma, já não é falada há séculos. O português existe há mais de mil anos, e seria no mínimo obscuro e autoritário impedir o surgimento de fenômenos próprios apenas porque não existiam no latim.


Outro argumento a favor da forma supostamente correta, além do sintático, é o semântico. Insistem os gramáticos tradicionais na seguinte “equivalência”:


Abatem-se frangos = Frangos são abatidos
abatem-se, na voz passiva = são abatidos, na voz ativa...


...daí a (suoposta e arrogada) necessidade da concordância verbo-nominal.


Ora, trata-se de mera convenção, arbitrada e idealizada. Sob o ponto de vista semântico, e para perceber o disparate, basta anular a inversão do sujeito e colocá-lo na ordem correta. Vejamos o resultado:


Abatem-se frangos = Frangos se abatem... (Suicidas!!!)


E mais:


Procuram-se criminosos = Criminosos se procuram
Avistam-se as plantações = As plantações se avistam
Exterminam-se pragas = Pragas se exterminam


São resultados no mínimo cômicos – criminosos sofrem de crise existencial, plantações contemplativas se observam, pragas boazinhas nos fazem o favor de se auto-exterminar – ou até trágicos, se fizermos a inversão, por exemplo, em “exterminaram-se milhões de judeus durante a segunda guerra mundial”...


Desse modo, seria artificial considerar “Abate-se frangos” uma forma passiva, pois o que se enfatiza nesta construção é o ato de abater, donde não há dúvida que alguém faz isso, mesmo que esse alguém não seja nomeado – este sujeito é, simples e eficazmente, expresso pela partícula se”.


E se até aqui as explicações sintática e semântica não convenceram, há ainda um último trunfo, qual seja: um argumento pragmático. Definitivamente, frases do tipo “Abate-se frangos” não estão na voz passiva, mas na voz ativa, uma vez que indicam uma clara intenção do falante de enfatizar a ação praticada. “Frangos são abatidos”, esta sim, a autêntica forma passiva (do latim passio, passionis, que significa “sofrimento” – daí "paixão", que é o sofrer de amor...). Pragmaticamente, portanto, “Abate-se frangos” denota uma circunstância, um intuito e um efeito – mais ativo, impossível.


De resto, enquanto os pobres frangos continuam a cometer suicídio pelas granjas do país afora, o quê privilegiar: o modo mais natural, mais espontâneo e mais confortável de se falar, ou uma herança embolorada e anacrônica que se presta tão-somente à estratificação social baseada na linguagem?...
Aguarda-se respostas..., e, enquanto isso, João Cabral de Melo Neto:


Catar feijão se limita a escrever:
Joga-se os grãos na água do alguidar
E as palavras na folha de papel;
E depois, joga-se fora o que boiar.


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(Na próxima postagem da séria, uma homenagem ao Gilmar Mendes...)
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segunda-feira, 26 de abril de 2010

Esdrúxulas Proparoxítonas

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"Todas as palavras esdrúxulas
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas."
Fernando Pessoa,
O guardador de rebanhos e outros poemas.
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De volta à série sobre sociolinguística, falemos hoje sobre o ‘esdrúxulo’.
E para começar, da inquieta poesia de Augusto dos Anjos, observe-se os versos em destaque:


A idéia

De onde ela vem?! De que matéria bruta
Vem essa luz que sobre as nebulosas
Cai de incógnitas criptas misteriosas
Como as estalactites duma gruta?!

Vem da psicogenética e alta luta
Do feixe de moléculas nervosas,
Que, em desintegrações maravilhosas,
Delibera, e depois, quer e executa!

Vem do encéfalo absconso que a constringe,
Chega em seguida às cordas do laringe,
Tísica, tênue, mínima, raquítica…

Quebra a força centrípeta que a amarra,
Mas, de repente, e quase morta, esbarra
No mulambo da língua paralítica.


Eis, portanto, um bom exemplo dos assim chamados versos esdrúxulos. ‘Esdrúxulo’, termo que na linguagem familiar significa ‘esquisito, estranho, fora do comum’, originalmente designa um grupo específico de palavras da língua portuguesa: as proparoxítonas - como ‘raquítica’ e ‘paralítica’ dos versos acima.

Sim, palavras proparoxítonas recebem o nome de esdrúxulas, e não é por acaso. As proparoxítonas não são propriamente comuns no português, tanto que a regra ortográfica determina que ‘todas as proparoxítonas devem ser acentuadas’. A tendência natural da língua portuguesa, o seu ritmo próprio, é paroxítono, de modo que se faz necessário marcar com o acento gráfico o que distoa do geral. O adjetivo ‘próspero’, por exemplo, se grafado sem o acento, conduziria à leitura de ‘prosro’, flexão do verbo ‘prosperar’.

Por causa dessa tendência paroxítona natural do idioma de Camões, é comum se falar no português não-padrão uma série de palavras proparoxítonas de modo abreviado, como nos exemplos: ‘árvore’ = arvre; ‘córrego’ = corgo; ‘fósforo’ = fosfro; ‘pássaro’ = pasro ou passo (como em ‘passo-preto’).

Todavia, e mais uma vez, é importante salientar que aquilo que costuma ser taxado de ‘errado’ no português não-padrão não é nada mais que o resultado de tendências da própria língua. Quanto às proparoxítonas, essa tendência fica evidente quando se compara termos atuais com seu original latino (clique e amplie):


E a lista poderia ser maior, pois são numerosos os exemplos desse fenômeno. Inclusive quanto aos nomes próprios, donde Cárolus originou Carlos; Stéphanu, Estevão; Brácara, Braga. Há também daqueles casos em que uma palavra proparoxítona latina originou duas na língua portuguesa - uma paroxítona, outra proparoxítona. Aqui, tem-se uma boa noção de como a partir de uma mesma origem a língua se bifurca: segue, de um lado, a tendência erudita; do outro, a tendência popular. Esse é o caso do latim coágulu, donde surgiu a paroxítona coalho e a proparoxítona coágulo. Portanto, o leite ‘coalha’ – termo comum usado entre o povo em geral – mas o sangue coagula – termo restrito a determinada parcela da população.

E há, ainda, outra importante constatação: o termo paroxítono, popular, abreviado com relação ao original, é ele o mais antigo; a formação do termo erudito geralmente é mais recente, o que indica um resgate artificial do termo erudito em contraponto a evolução natural que originou o termo popular. E assim também o é em ácido e azedo, em pútrido e podre, e em frígido e frio, entre muitos outros exemplos.

Afinal, quais seriam as razões por trás desse fenômeno?

A resposta, certamente, não é a pressuposta ‘preguiça’ atribuída ao falante do português não-padrão. Ao contrário, o que naturalmente acontece ao longo da evolução de uma língua é uma aceleração no ritmo da fala, ou seja, a língua se torna mais dinâminca, mais rápida. Assim, se numerosas palavras já se oficializaram como paroxítonas no português padrão, outras ainda não, fruto da repressão imposta pela educação formal e pela rigidez dos preceitos gramaticas. Refreamentos que, todavia, não impedem o seu livre fluir na boca do povo.
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(Artigo inspirado em BAGNO, Marcos. A língua de Eulália, Contexto, 2008)
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(Na próxima postagem sobre o tema: O estranho caso dos frangos suicidas)
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Ego

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O diálogo é do ótimo “Sonhando Acordado”.
Diálogo jocoso, inusitado e, acima de tudo, honesto – mas de um tipo caricato de honestidade, inescrupuloso até, que escancarara sem pudor o egoísmo felino de um dos interlocutores.
A fala beira o absurdo – ou o ridículo –, e a graça está precisamente na ridícula desfaçatez do personagem Paul (Simon Pegg).
Ele está aborrecido porque descobriu que a ex-mulher – a quem traía sistematicamente, da qual se dizia farto, e que finalmente o deixara – está com outro.
Seu amigo, Gary (Martin Freeman), ouve o seu ‘desabafo’...

Bom, sem delongas, ao diálogo:

Gary
Eu não acredito que você esteja chateado.
Pensei que você estivesse contente de ter se livrado dela.

Paul (introspectivo)
E estou.
Sim, estou...
É que, sabe?, de certa forma...
É que... Eu não sei...
(pausa breve)
Eu queria que ela ficasse sentada naquele apartamento
para o resto da vida dela,
apenas, você sabe, pensando em mim...
Pensando só em coisas sobre mim,
pensando no quanto...
sabe?, no quanto eu sou o melhor.
E que tivesse esperança de que, talvez, eu pudesse voltar...
E eu até posso voltar! Talvez eu até volte!...
(pausa breve)
...se eu não encontrar nada melhor por aí eu até volto!
Eu sei, isso pode soar meio maluco,
mas significa muito pra mim.
Eu não quero é que ela seja feliz.
(pausa)
Isso faz de mim um egoísta?...

Gary (lacônico)
Sim
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No original:

Gary
Hey, I can't believe you're so upset.
I thought you'd be glad to be rid of her.
Paul
I am. I am.
You know, in some ways...
It's just... I don't know.
I want her to sit in that apartment
for the rest of her life,
you know, just thinking about me.
I want her to think about how, you know,
I'm the best.
And to be hoping that I might come back.
And I might! I might come back.
If there's nothing better out there.
I know, it sounds crazy,
but this is too much for me.
I don't want her to be happy.
Does that make me selfish?
Gary
Yes.
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sexta-feira, 23 de abril de 2010

A Assimilação Que Não Assimilamos... Ainda

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(Inspirado em Marcos Bagno; A língua de Eulália. Contexto, 2008).

Mesmo entre os ‘instruídos’, é comum a pronúncia apressada dos verbos no gerúndio, donde ‘andando’, ‘falando’ e ‘escrevendo’ acabam convertidos em andano, falano, escreveno. Não, não se trata de ‘erro’, tampouco de ‘ignorância’. Trata-se, mais uma vez, e como se verá, de um fato linguístico fruto da evolução natural de uma língua.

Ocorre que /n/ e /d/ pertencem a uma mesma família fonética – a das consoantes alveolares (em português são alveolares t, d, n, s, z, l e o ‘r’ fraco, como em fraco). Na pronúncia dessas consoantes, a ponta da língua (ápice) ou a sua porção dianteira (pré-dorso ou lâmina) entra em contato com os alvéolos dos dentes incisivos superiores, isto é, com a região onde há as cavidades de encaixe dos dentes nos maxilares.

Os fonemas /n/ e /d/ são, portanto, produzidos numa mesma zona de articulação. A pronúncia cuidadosa da palavra ‘nada’ ilustra o fenômeno: é possível perceber como a língua toca levemente a extremidade anterior do céu-da-boca (palato), precisamente onde se encaixam os incisivos superiores. E como são produzidas numa mesma zona de articulação, existe uma tendência nas línguas naturais de que dois sons diferentes, mas com algum ‘parentesco’, tornem-se iguais ou semelhantes. A essa tendência natural dá-se o nome de assimilação.

No caso da pronúncia dos gerúndios ocorreu, ao longo do tempo, uma assimilação do D pelo N. Logo, ‘falando’ converteu-se em falanno (com duplo n, um nasal e outro alveolar) e este se reduziu a falano, como hoje não raro se pronuncia. De modo semelhante, são pronunciadas com o mesmo desembaraço as palavras tamémmuncado, no lugar de ‘também’ e ‘um bocado’. Nestes casos ocorreu a assimilação do B pelo M, uma vez que ambas são consoantes bilabiais. A pronúncia cuidadosa de ‘momo’ e ‘bobo’ pode ilustrar o movimento dos lábios na articulação das bilabiais.

Esses assim chamados ‘erros do português falado’ não são fenômenos regionais, ou falares típicos de determinada classe social; são, ao contrário, fenômenos linguísticos universais. Há casos de assimilações semelhantes em outras línguas derivadas do latim. Por exemplos:

- no catalão, do latim mandare (mandar) fez-se manar – assimilação do D pelo N;

- no castelhano, o latim lumbu (lombo) converteu-se em lomo; e do latim lambere (lamber) nasceu lamer – assimilações do B pelo M.

Note-se que, nesses idiomas, o fenômeno não se limita à fala, mas alcança o registro oficial, uma vez que a força das assimilações resultou na sua incorporação à língua escrita. O mesmo poderia muito bem ter acontecido no Brasil, não fosse a nossa histórica reverência ao precioso português-padrão de raiz lusitana, em detrimento da aceitação da língua do povo, mais natural e, portanto, mais lógica. Afinal, a língua sempre foi - e muitos querem que continue sendo - um importante instrumento de dominação e de poder.

(Na próxima postagem: por que será que os versos terminados em palavras proparoxítonas são chamados de “esdrúxulos”?).
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Já vai tarde...

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Brasília, 23 de abril de 2010!

E a festa não acabou!...

VIVAS, VIVAS! ! !

HIP HURRAS! ! !

EVOÉS, EVOÉS! ! !

EPARREIS, AXÉS, SARAVÁS! ! !...
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Depois de dois longos anos, nosso estimado, ubíquo e conspícuo supremo presidente do supremo se vai.

Tá certo, ele continua lá...

...mas agora sem os holofotes da mídia, que tanto presa...

...e os danos (esperamos todos) serão menores.

A seguir, a (justa) homenagem do blog Brasília, eu vi:

"A Idade Mendes"

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"Quanto menos um homem pensa, mais ele fala"
(Montesquieu)
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quinta-feira, 22 de abril de 2010

Globo, 45 anos enganando você

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A seguir, uma compilação das últimas postagens do (excelente) praeumeouvir sobre a (breve) saga da 'campanha institucional' (rá) da rede globo, (pretensamente) alusiva aos 45 anos da emissora.

Informe-se! Reflita! Decida!... E divulgue.


"Globo, 45 anos enganando você (19 de abril)


Foi tão escancarado que alguém deve ter caído em si :


Globo decide suspender comercial acusado de ser pró-Serra
19 de abril de 2010 • 17h19 •

Para não "ser acusada de tendenciosa" e favorável a José Serra (PSDB), a Central Globo de Comunicação decidiu suspender a veiculação da campanha institucional dos seus 45 anos. O coordenador da campanha de Dilma Rousseff (PT) na internet, Marcelo Branco, criticou a mensagem subliminar da propaganda, acusando-a de inspirar-se no lema de Serra, o "Brasil pode mais". A Globo respondeu nesta tarde a um questionamento do Portal Terra:

"O texto do filme em comemoração aos 45 anos da Rede Globo foi criado - comprovadamente - em novembro do ano passado, quando não existiam nem candidaturas muito menos slogans. Qualquer profissional de comunicação sabe que uma campanha como esta demanda tempo para ser elaborada.

Mas a Rede Globo não pretende dar pretexto para ser acusada de ser tendenciosa e está suspendendo a veiculação do filme."  
 
"O Golpe da Globo (20 de abril)
 

Aqui a prova de que a globo mente ao dizer que o comercial foi realizado em novembro passado.
 
Aqui os bastidores do quase golpe contados pelo DoLaDoDeLá. Vai lá. Vale a pena.

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Aqui, o link para o vídeo da 'campanha institucional'

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Praeumeouvir - clap, clap, clap!
Passa lá que ela é fera! Irreverente, sabe o que diz...
E eu ♥
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domingo, 18 de abril de 2010

O Yeísmo - Uma (R)evolução Linguística

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"La Liberté guidant le Peuple" - 1830  (Delacroix).
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(Inspirado em Marcos Bagno; A língua de Eulália. Contexto, 2008).

Primeiro, uma breve análise fonética:

“VELHO” = cinco letras, quatro fonemas: V – consoante constritiva fricativa + E – vogal aberta + LH (/l/) – consoante constritiva lateral + O (/U/) – vogal reduzida.

Ocorre que em determinadas falas do português não-padrão o som consonantal de ‘LH’ – representado por /l/ (lambda) – simplesmente não existe, assim como não existe no português-padrão a consoante ‘TH’ típica do inglês (como em thing, ou como no ceceio, a deficiência da fala em que se pronuncia o S com a língua entre os dentes). Assim, não é raro ouvir-se por aí a pronúncia véio em vez de velho. Hoje em dia a garotada costuma se tratar por véio, ao que torcem o nariz os puristas, mas o uso deste yeísmo – como ao fenômeno se refere a linguística – é mais antigo. No Cuitelinho, por exemplo, o uso do yeísmo é comum (ver Plural: uma redundância?). Na canção, troca-se ‘falha’ por faia, ‘espalha’ por espaia, ‘batalha’ por bataia, ‘parentalha’ por parentaia e 'atrapalha' por atrapaia, o que contribui para a riqueza lírica do poema e traduz fielmente o jeito de falar natural de uma região e de um povo.

Todavia, e como qualquer outro fenômeno linguístico, o yeísmo também possui a sua lógica. Antes de ser um efeito (ou defeito, para os puristas) regional e popular, é notadamente histórico, fruto da evolução natural da língua, tal como ocorre no rotacismo e na supressão dos plurais. No castelhano, também derivado do latim vulgar, a conversão do fonema /l/ em ‘I’ é comum em certas regiões da Espanha, na América Central e Caribe, bem como em muitos países sul-americanos. Nessas regiões e países, a palavra caballo, cuja pronúncia dita padrão é ‘cabalho’, converte-se em ‘cabaio’. Muito embora os habitantes da região de Castela, a ‘pátria’ do castelhano, considerem tal jeito de falar como um “defeito”, na França a evolução se consolidou. Na pátria de Baudelaire, Balzac e Flaubert o ‘LH’, lá escrito ‘ILL’, definitivamente cedeu seu espaço para o ‘I’. Observe-se o quadro comparativo (clique e amplie):

(modificado de Bagno, Marcos; A língua de Eulália. Contexto, 2008)

Sob o ponto de vista estrutural linguístico, Heinrich Lausberg explica o fenômeno na língua francesa:

“Por afrouxamento e, finalmente, abandono da oclusão central, forma-se do /l/ (difícil de pronunciar por causa da elasticidade reduzida do dorso da língua) muito naturalmente a fricativa /y/ como em francês, espanhol popular e dialetal”.
(LAUSBERG, H. Linguística românica. 2ª ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1981. p. 71. In: BAGNO, Marcos. A língua de Eulália. Contexto, 2008, p. 59.)

Trocando em miúdos, é mais fácil pronunciar ‘I’ do que ‘LH’. E como ambos os sons são produzidos com o dorso da língua no palato, ocorreu, naturalmente, o fenômeno da assimilação, isto é, a proximidade da estrutura fonética combinada à comodidade, converteu /l/ em /y/ no idioma francês, oficialmente.

Qual seria, então, o motivo para que o mesmo não ocorra na Espanha ou no Brasil, isto é, a oficialização do fenômeno na língua formal? Para essa pergunta a resposta não é linguística, mas histórica, política e social: na França dos fins do século XVIII, um importante evento retirou do poder a aristocracia, a nobreza e o clero, adeptos do LH como marca de distinção. Os burgueses, até então ridicularizados e desprezados por causa da sua pronúncia ‘errada’ – exatamente como ocorre no Brasil com os falantes do português não-padrão – subiram ao poder. Daí até a extinção de uma forma e a fixação da outra, poucas décadas foram necessárias.

(Na próxima postagem, o fenômeno linguístico da assimilação)
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quinta-feira, 15 de abril de 2010

Plural: Uma Redundância?

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(Inspirado em Bagno, Marcos; A língua de Eulália. Contexto, 2008)

Além de eminente zoólogo, Paulo Vanzolini também foi um homem da música. A famosa (ou famigerada) Ronda e a bela Cuitelinho são obras suas – a primeira, letra e música; a segunda, canção recolhida por ele e Antônio Xandó do folclore mato-grossense. Eis a letra de Cuitelinho:

“Cheguei na beira do porto onde as onda se espaia
As garça dá meia volta e senta na beira da praia
E o cuitelinho não gosta que o botão de rosa caia, ai, ai
Ai quando eu vim da minha terra despedi da parentáia
Eu entrei no Mato Grosso dei em terras paraguaia
Lá tinha revolução enfrentei fortes batáia, ai, ai
A tua saudade corta como aço de naváia
O coração fica aflito bate uma, a outra faia
E os óio se enche d'água que até a vista se atrapáia, ai...”

Bonitinha, mas ordinária?
Caipira demais?
Cheia de ‘erros’ de português?...
Não para a linguística.

Na postagem anterior, viu-se que o rotacismo – tendência de substituir por ‘R’ o ‘L’ dos encontros consonantais – é um fenômeno natural típico da evolução da língua falada, e que eventualmente firma-se na língua padrão. Agora, tomando por base a letra de Cuitelinho, dois outros fenômenos, também frutos da mutabilidade natural de uma língua, podem ser examinados.

E o primeiro deles é a supressão do plural. Vejamos, portanto, se há maior ou menor dificuldade para se compreender uma ou outra das formas abaixo:

a) “As garças dão meia volta, sentam na beira da praia”.
b) “As garça dá meia volta, senta na beira da praia”.

Ambas perfeitamente entendidas!

As duas construções transmitem a mesma mensagem, qual seja: mais de uma garça dá meia volta e senta na beira da praia. Todavia, a primeira forma, dita ‘correta’, é mais dispendiosa, tanto na linguagem escrita quanto na fala. Eis, portanto, outra tendência na evolução de uma língua: a economia! A tendência de se suprimir as chamadas marcas redundantes de plural é uma inclinação natural. Se o artigo, como primeiro termo da oração, está no plural, tem-se já um sinal bastante e suficiente de que os demais elementos também se referem à quantidade por ele definida, isto é, mais de um.

Deste modo ‘esquisito’ costumam falar os mineiros: “Ques coisa mais chata!” ou “Ques criança mais linda!”. Aqui temos não uma esquisitice, mas uma inovação! Mesmo sem o artigo, o mineiro já trata de flexionar o primeiro elemento da frase – no caso, o pronome que – de modo a economizar, mineiramente, as supérfluas marcas de plural no restante da construção.

Mas o leitor, ainda convencido de que tal discordância de número configure positivamente um ‘erro’ de português, pode argumentar que soa mal, ou que é coisa de ‘gente sem instrução’, ou ainda que denota preguiça, ou que é fenômeno típico do nosso meio rural... À luz da linguística, havemos que discordar de todos esses argumentos. Soar bem ou mal depende do hábito, da frequência que se emprega o termo; ‘gente sem instrução’ e a suposta ‘preguiça’ são argumentos carregados de preconceito; e quanto a ser um fenômeno típico, ou exclusivo de um grupo, vejamos os exemplos que se seguem:

“Your hot soft touch drive drives me crazy”e
"Your hot soft touches drive drives me crazy”.

Em português:
“Seu toque suave e sensual me leva a loucura” e
“Seus toques suaves e sensuais me levam a loucura”
(repare-se como a forma plural não é tão agradável).

Como são preguiçosos e caipiras esses ingleses, não?... Que nada! Eles são é econômicos: basta um único ‘S’ aposto ao substantivo touch e toda a idéia vai para o plural!

E outro exemplo, agora do francês:

“Je voux te donner la belle fleur jaune qui pousssait dans mon jardin” e
“Je voux te donner les belles fleurs jaunes qui pousssaient dans mon jardin”.

Em português:
“Quero te dar a bela flor amarela que crescia em meu jardim” e
“Quero te dar as belas flores amarelas que cresciam em meu jardim”.
(extraído de A língua de Eulália)

‘Ora’ – dirá o leitor – ‘mas no francês há muitas marcas de plural’. Certamente, mas apenas na escrita. O francês escreve as marcas de plural, mas nunca as pronuncia! A única diferença audível está no artigo – singular ‘la’, plural ‘les’ (pronuncia-se ‘lê’).

Está claro, portanto, que a tendência de suprimir o excesso de plurais não é um fenômeno pontual típico de um determinado grupo ou de uma determinada região. Tampouco é um erro. Trata-se de uma marca de evolução, que mais cedo ou mais tarde, quando a língua deixar de ser usada como instrumento de dominação e poder, poderá se consolidar na chamada norma padrão.

(O outro fenômeno lingüístico encontrado em Cuitelinho é a utilização da vogal ‘I’ no lugar de ‘LH’, como em espaia, em vez de espalha. Mas esse é um assunto para a próxima postagem).
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Publicado oridinalmente no Recanto das Letras em 29 de abril de 2009.

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Update:

Anônimo disse...


OK, but "Your hot soft touch drive me crazy" should be "Your hot soft touch drives me crazy" there's an "s" missing there

You're right. "Dives me crazy" is the correct form. Thanks.
 
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quarta-feira, 14 de abril de 2010

O Rotacismo - ele gruda feito 'chicrete'

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‘Pranta’, ‘grobo’, ‘frauta’ e ‘probrema’: erros elementares de ortografia na nossa língua portuguesa, certo?
Você concorda?...
Sem pestanejar?...
Pois discordaria se examinasse os tais ‘erros’ à luz da moderna sociolinguística.

Há uma importante corrente de linguistas brasileiros que não concorda com o rótulo de ‘erro’ aposto de modo definitivo e peremptório ao jeito de falar do povo comum, dito iletrado. A esta ‘língua errada’, típica das classes sociais cujo acesso à educação formal é limitado, a linguística moderna chama de ‘português não-padrão’, por oposição ao português-padrão ensinado nas escolas e encontrado nas gramáticas e dicionários. Jamais lhe reputam o estigma do erro; consideram-na, tão somente, ‘uma outra maneira de falar’.

Longe de ser risível, ou absurdo, ou fruto da ignorância do povo, o ‘português não-padrão’ possui a sua própria lógica linguística, solidamente fundamentada na evolução natural da língua através dos tempos. A este fenômeno em particular, da troca do ‘L’ pelo ‘R’ nos encontros consonantais, dá-se o nome de rotacismo. E o rotacismo não é um erro. É, ao contrário, uma tendência natural na evolução das chamadas línguas românicas, aquelas cujo tronco é o latim (especificamente, o latim vulgar). Reputar o fenômeno com a pecha de ‘erro absurdo fruto da ignorância’, ou pior, de ‘burrice’ do eventual falador, significa desconhecer a evolução natural da língua, o que redunda em manifesto preconceito, se postulado sem razão de causa.

Senão, vejamos os exemplos: igreja, Brás, praia, escravo e frouxo. Comparemos, agora, cada uma dessas palavras com a sua original latina e com as correspondentes de outras línguas latinas (clique para ampliar):

Pois bem, havia um ‘L’ no latim, que se conservou no francês e no espanhol (castelhano), mas que acabou por se converter num ‘ridículo’ ‘R’ no português... Ridículo? Mas não há nada de ridículo em igreja, ou Brás, ou praia! Então, por que haveria de se ter algo risível, ou condenável, em frecha, pranta ou frauta?... ‘Ah, porque é feio!’, ou ainda, ‘simplesmente porque está errado!’, diria o raro leitor... Bem, neste caso, resta a mim me socorrer nalguns versos d’Os Lusíadas, obra prima daquele que é considerado o maior poeta – senão ‘inventor’ – do português literário.

Com vocês, Luís de Camões:

“E não de agreste avena, ou frauta ruda” (canto I, verso 5)
“...pruma no gorro, um pouco inclinada” (canto II, verso 98)
"Era este ingrês potente, e militava” (canto VI, verso 47)
“Onde o profeta jaz, que a lei pubrica (canto VII, verso 34)
“Doenças, frechas, e trovões ardentes” (canto X, verso 46)
“Nas ilhas de Maldiva nasce a pranta (canto X, verso 136)
(idem, ibidem)

Coitado... Como era ignorante este tal de Camões!...
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(publicado originalmente no Reacanto das Letras, em 27 de abril de 2009)

terça-feira, 13 de abril de 2010

Há ainda direita e esquerda?

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Por Emir Sader - Agência Carta Maior

Diante de alguns argumentos que ainda subsistem sobre o suposto fim da divisão entre direita e esquerda, aqui vão algumas diferenças. Acrescentem outras, se acharem que a diferença ainda faz sentido.

Direita: A desigualdade sempre existiu e sempre existirá. Ela é produto da maior capacidade e disposição de uns e da menor capacidade e menor disposição de outros. Como se diz nos EUA, “não há pobres, há fracassados”.
Esquerda: A desigualdade é um produto social de economias – como a de mercado – em que as condições de competição são absolutamente desiguais.

Direita: É preferível a injustiça, do que a desordem.
Esquerda: A luta contra as injustiças é a luta mais importante, nem que seja preciso construir uma ordem diferente da atual.

Direita: É melhor ser aliado secundário dos ricos do mundo, do que ser aliado dos pobres.
Esquerda: Temos um destino comum com os países do Sul do mundo, vitimas do colonialismo e do imperialismo, temos que lutar com eles por uma ordem mundial distinta.

Direita: O Brasil não deve ser mais do que sempre foi.
Esquerda: O Brasil pode ser um país com presença no Sul do mundo e um agente de paz em conflitos mundiais em outras regiões do mundo.

Direita: O Estado deve ser mínimo. Os bancos públicos devem ser privatizados, assim como as outras empresas estatais.
Esquerda: O Estado tem responsabilidades essenciais, na indução do crescimento econômico, nas políticas de direitos sociais, em investimentos estratégicos como infra-estrutura, estradas, habitação, saneamento básico, entre outros. Os bancos públicos têm um papel essencial nesses projetos.

Direita: O crescimento econômico é incompatível com controle da inflação. A economia não pode crescer mais do que 3% a ano, para não se correr o risco de inflação.

Direita: Os gastos com pobres não têm retorno, são inúteis socialmente, ineficientes economicamente.
Esquerda: Os gastos com políticos sociais dirigidas aos mais pobres afirmam direitos essenciais de cidadania para todos.

Direita: O Bolsa Família e outras políticas desse tipo são “assistencialismo”, que acostumam as pessoas a depender do Estado, a não ser auto suficientes.
Esquerda: O Bolsa Família e outras políticas desse tipo são essenciais, para construir uma sociedade de integração de todos aos direitos essenciais.

Direita: A reforma tributária deve ser feita para desonerar aos setores empresariais e facilitar a produção e a exportação.
Esquerda: A reforma tributária deve obedecer o principio segundo o qual “quem tem mais, paga mais”, para redistribuir renda, com o Estado atuando mediante políticas sociais para diminuir as desigualdades produzidas pelo mercado.

Direita: Quanto menos impostos as pessoas pagarem, melhor. O Estado expropria recursos dos indivíduos e das empresas, que estariam melhor nas mãos destes. O Estado sustenta a burocratas ineficientes com esses recursos.
Esquerda: A tributação serva para afirmar direitos fundamentais das pessoas – como educação e saúde publica, habitação popular, saneamento básico, infra-estrutura, direitos culturais, transporte publico, estradas, etc. A grande maioria dos servidores públicos são professores, pessoal médico e outros, que atendem diretamente às pessoas que necessitam dos serviços públicos.

Direita: A liberdade de imprensa é essencial, ela consiste no direito dos órgãos de imprensa de publicar informações e opiniões, conforme seu livre arbítrio. Qualquer controle viola uma liberdade essencial da democracia.
Esquerda: A imprensa deve servir para formar democraticamente a opinao pública, em que todos tenham direitos iguais de expressar seus pontos de vista. Uma imprensa fundada em empresas privadas, financiadas pela publicidade das grandes empresas privadas, atende aos interesses delas, ainda mais se são empresas baseadas na propriedade de algumas famílias.

Direita: A Lei Pelé trouxe profissionalismo ao futebol e libertou os jogadores do poder dos clubes.
Esquerda: A Lei Pelé mercantilizou definitivamente o futebol, que agora está nas mãos dos grandes empresários privados, enquanto os clubes, que podem formar jogadores, que tem suas diretorias eleitas pelos sócios, estão quebrados financeiramente. A Lei Pelé representa o neoliberalismo no esporte.

Direita: O capitalismo é o sistema mais avançado que a humanidade construiu, todos os outros são retrocessos, estamos destinados a viver no capitalismo.
Esquerda: O capitalismo, como todo tipo de sociedade, é um sistema histórico, que teve começo e pode ter fim, como todos os outros. Está baseado na apropriação do trabalho alheio, promove o enriquecimento de uns às custas dos outros, tende à concentração de riqueza por um lado, à exclusão social por outro, e deve ser substituído por um tipo de sociedade que atenda às necessidades de todos.

Direita: Os blogs são irresponsáveis, a internet deve ser controlada, para garantir o monopólio da empresas de mídia já existentes. As chamadas rádios comunitárias são rádios piratas, que ferem as leis vigentes.
Esquerda: A democracia requer que se incentivo aos mais diferentes tipos de espaço de expressão da diversidade cultural e de opinião de todos, rompendo com os monopólios privados, que impedem a democratização da sociedade.
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Emir Sader é jornalista.
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Liberdade, essa palavra...

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Não importa a questão semântica – liberdade, como conceito acabado, não existe.

É possível ser relativamente livre, mais ou menos independente num ou noutro aspecto, mas nunca se é absolutamente livre.

A existência segue seu curso na segura direção de um propósito inatingível: o ‘ser feliz’ (felicidade, outro conceito relativo). E na busca pela felicidade, a liberdade, sempre relativa, é apenas uma escolha. Trata-se, portanto, de uma opção, uma variante entre muitas outras que supostamente conduzem pelo caminho da suposta felicidade.

Ainda assim, escolho ser livre. Ao menos no domínio do pensar, porque na esfera do agir, na instância do ser, nunca se será inteiramente livre. As limitações são muitas. As barreiras que separam todos, sem exceção, da verdadeira liberdade, são inexpugnáveis.

Liberdade é um sonho, pertence ao universo das coisas inefáveis. Embora não haja quem não seja capaz de entendê-la, não há, igualmente, quem seja capaz de explicá-la. E se dissimuladamente parafraseio os versos de Cecília Meireles (1), também me socorro no Gauche de Itabira, com o inútil esforço de referir-me à liberdade, essa palavra...

“o pássaro é livre na prisão do ar
o espírito é livre na prisão do corpo
mas livre, bem livre, é estar morto” (2)

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(1) MEIRELES, Cecília. Romanceiro da Inconfidência. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005.
(2) Carlos Drumond de Andrade, Liberdade.
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segunda-feira, 12 de abril de 2010

Saulo, o culpado

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Saulo, por Rembrandt
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Deus não tem culpa de nada. Ele sequer existe.

Parafraseio Stendhal para apontar o principal e original culpado pelas ações praticadas pela cristandade contra o gênero humano nos últimos dezessete séculos.
E, não, não é Jesus.
Talvez pudesse ser o Cristo, mas não Jesus. O Jesus histórico (desde que de fato existira) é o verdadeiro revolucionário; o Cristo bíblico é o “pilantra” (antes de se escandalizar, leia trecho do editorial abaixo). E quem inventou esse Cristo é o primeiro culpado; seu nome, Saulo de Tarso, depois Paulo.
Bem a propósito deste despretensioso e servidiço corolário, Mino Carta escreve em Editorial de Carta Capital desta semana (nº 591, 14 de abril):

Galoparam os séculos, mas a Igreja é, ainda e sempre, tragicamente anacrônica.

Philip Pullman, escritor inglês dos bons, escreveu um livro intitulado The Good Man Jesus and the Scoundrel Christ, O Bom Jesus e o Pilantra Cristo. Há quem diga que se trata de obra blasfema. Em compensação a crítica Charlotte Higgins do The Guardian define o livro como “fascinante, de prosa próxima daquela dos irmãos Grimm”, enquanto o arcebispo da Canterbury, Rowan Williams, primaz anglicano, afirma: “Texto emocionante, marcado por uma genuína espiritualidade”.

O título expõe o propósito: diferenciar Jesus, “verdadeiro revolucionário”, do Cristo de quem a Igreja se apossou, depois de Paulo de Tarso ter inventado um salvador filho de Deus. Paulo, militar como Ignacio de Loyola, general do exército da Contrarreforma. Clara está a revolução de Jesus, pregador da igualdade em um mundo profundamente desigual. Os outros dois eram talhados para a guerra.

(...)

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sexta-feira, 9 de abril de 2010

Os Dez Mandamentos (edição revisada e amplilada)

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Excelente este artigo de Ladislau Dowbor.
O texto é didático, é equilibrado e, sobretudo, é simples.
E o que preconiza é simples também; mas é de uma simplicidade que, na prática, não se alcançará jamais.
Simples, mas inexequível – há interesses, há (des)governos, há corporações...
Há o jogo do poder e da ganância assentado no egoísmo, essa paixão indissociável da natureza humana que submete o comportamento ao interesse particular, em prejuízo de qualquer outro sentimento minimamente mais nobre.

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Da Agência Carta Maior

Ladislau Dowbor

Como sociedade, desejamos não somente sobreviver, mas viver com qualidade de vida, e porque não, com felicidade. E isto implica elencarmos de forma ordenada os resultados mínimos a serem atingidos, com os processos decisórios correspondentes. Os Mandamentos abaixo elencados têm um denominador comum: todos já foram experimentados e estão sendo aplicados em diversas regiões do mundo, setores ou instâncias de atividade. São iniciativas que deram certo, e cuja generalização, com as devidas adaptações e flexibilidade em função da diversidade planetária, é hoje viável. Não temos a ilusão relativamente à distância entre a realidade política de hoje e as medidas sistematizadas abaixo. Mas pareceu-nos essencial, de toda forma, elencar de forma organizada as medidas necessárias, pois ter um norte mais claro ajuda na construção de uma outra governança planetária. Não estão ordenadas por ordem de importância, pois a maioria tem implicações simultâneas e dimensões interativas. Mas todos os mandamentos deverão ser obedecidos, pois a ira dos elementos nos atingirá a todos, sem precisar esperar a outra vida.

Considerando que a obediência à versão original dos Dez Mandamentos foi apenas aleatória, desta vez o Autor teve a prudência de acrescentar a cada Mandamento uma nota de explicação, destinada em particular aos impenitentes.
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Leia o artigo na íntegra
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terça-feira, 6 de abril de 2010

O pregador

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Acordei, abri os olhos, fechei de novo... “putaquepariu”. Um suspiro me sentou da cama, a cabeça me doeu. Fiz careta e levantei. Sai do quarto coçando a bunda, o desânimo saiu comigo. Mijei grunhindo feito bicho doente. Investiguei a cara no espelho, examinei os olhos mal-dormidos, a barba naquele ponto entre o relaxado e o tosco... “Foda-se”, puta preguiça de fazer barba.

Cafezinho preto pra foder de vez o estômago, elevador. No quarto andar entra essa dona, ela me espicha com uns olhos de velha assustada e canta um “bom-dia” mais falso que CD da banda calipso. O meu sai espremido, feito merda...

Cigarro, primeiro do dia, de uns trinta e tantos. Arrasto o corpo pela rua meio cheia, meio vazia, o céu meio cinza, meio azul desmaiado.

Ponto de ônibus, segundo cigarro, primeira dor de estômago. Chuva fina, gente espremida, gente pobre e com sono, fodida que nem eu.

Chega o baú, filial do inferno, mais cheio que barriga de afogado. Neguinho me esfrega o sovaco no ombro; outro, com priapismo, rela o pau na minha bunda; meu próprio pau – mais mole que jornal no sereno – esbarra (sem querer, eu juro) no ombro da mocinha magrinha feinha sentadinha no corredor que me olha com aquela carinha nervosinha, mais ofendidinha que mãe de juiz.

O ônibus sacode mais que bolacha em boca de velho. Entra o Pregador. Vai se espremendo no meio do povo e para atrás de mim, o bosta. Olho por cima do ombro e dou uma medida no cara. A camisa já foi branca um dia, a gravata, mais curta que estribo de anão, o terninho fodido de terceira mão, seis quilos de bíblia debaixo do braço, sorriso mais nojento que mocotó de ontem. Começa a cantilena, o fedaputa acha de ficar a dois palmos do meu ouvido. Perdigoto, discursório, monte de bobagem repetida feito papagaio, “jesus te ama e quer te salvar” – salvar do quê, infeliz?! – “arrependei-vos e sereis salvos” – arrepender do quê, carapálida?! – “deus tem um plano na sua vida...”, viro e dou um murrão na cara dele...

Violento eu nunca fui. É que me deu uma coisa ruim por dentro... Fiquei assim meio cego na hora... Aí dei o murro, e ficou aquele silêncio de velório. O cara, assustado, com a mão no lugar do soco. E eu, paralisado, com aquela cara de padre em puteiro. Até que... uma palma... duas palmas... E o povo todo bateu palmas.

Saí do ônibus mais faceiro que mosca em tampa de xarope.
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domingo, 4 de abril de 2010

Roll the dice

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Roll the Dice
(Bukowski)

If you’re going to try, go all the way. otherwise, don’t even start.
Se você vai tentar, então vá com tudo. senão, nem comece.

this could mean losing girlfriends, wives, relatives, jobs, and maybe your own mind.
isso pode significar perder amigos, esposas, parentes, trabalhos… e até a própria cabeça.

it could mean not eating for three or four days.
talvez você fique sem comer por três ou quatro dias.

it could mean freezing on a park bench.
talvez congele no banco de uma praça.

it could mean jail.
ou pode até ir para a cadeia.

it could mean derision.
ou ser desprezado.

it could mean mockery.
ou escarnecido.

isolation.
isolado.

isolation is the gift. all others are a test of your endurance.
e o isolamento é o melhor. o resto é que a prova da sua teimosia.

of how much you really want to do it.
do quanto realmente deseja.

and you’ll do it, despite rejection and the worst odds. and it will be better than anything else
e você fará!, apesar da rejeição e do pior dos estorvos. e será melhor que qualquer coisa

you can imagine.
que você possa imaginar.

if you’re going to try, go all the way.
se você vai tentar, então vá com tudo.

there is no other feeling like that.
não há sensação parecida.

you will be alone with the gods and the nights will flame with fire.
você estará a sós com os deuses e as suas noites serão intensas.

you will ride life straight to perfect laughter.
e a vida o levará direto ao gozo perfeito…

its the only good fight there is.
eis pelo quê vale a pena lutar!
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(imagem)