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sábado, 30 de abril de 2011

Passos

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Cumprindo a promessa, uma poesia... E musicada!

É só um poeminha (escrevi numa mesa de bar, desafio entre amigos). Mas eu tive a honra, o prazer, o gozo e a satisfação de tê-lo lindamente transformado em música pelo querido (e distante, infelizmente) amigo, Jair Silva. A música, sem falsa modéstia, é muito melhor.

video

O poema, pra cantar junto:

Seu passo
Um descompasso
Que passa no meu coração
Um passo à frente,
Disfarço
Ou passo, uso a razão
Se faço,
Disfarço e ameaço
Fazer o que certo...
Ou não
Eu faço,
Por puro impulso,
Instinto
Ou emoção
(2X)

Seus passos
- um descompasso -
Perpassam a minha
Emoção
Um passo à frente
E ameaço
Ou penso e uso a...
Razão (?)
Esqueço o senso e disfarço
- “Ou faço o que certo...
Ou não?” -
Mas faço
(à força dos braços?)
Do impulso e da...
Tentação
(2X)

Letra: Marcello Cabral
Música, voz e violão: Jair Silva
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sexta-feira, 29 de abril de 2011

"O Renascimento da Razão"

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Na última postagem, implode a tentativa dos pensadores cristãos de conciliar, sob os seus próprios artifícios, razão e fé .
Toma o seu lugar, depois de obscuro milênio, o doloroso reflorescimento da razão.

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O Renascimento da Razão

Passados três séculos desde a supremacia – e subsequente ocaso – da Escolástica Medieval, durante os quais transcorreria um denso e prolífico período de reflorescimento da cultura e das artes ocidentais (o Renascimento), e sob forte influência deste mesmo período, irrompe no cenário do pensamento europeu, sobretudo na França, o Racionalismo Cartesiano.

Mais que uma doutrina contrária às manifestações místicas e dogmáticas da religião, o Racionalismo se opõe até mesmo às expressões dos sentimentos e das emoções no domínio do saber, muito embora reconheça na intuição o conhecimento direto e imediato, isto é, o fundamento primeiro para a ‘dedução’, que será o artifício a nortear esta escola filosófica.

Por oposição ao nascente Empirismo, os racionalistas atribuem à Razão independente da experiência sensível – a priori, portanto – a única autoridade na busca do conhecimento. Mas não se opõem – também a priori – à ideia da existência de deus. Se para deus não há lugar no racionalismo, para o racionalista cartesiano ele pode até existir. Mas existe de modo transcendente, para além da necessária concepção racional e mecanicista da natureza. Deste modo, o racionalista cartesiano se opõe ao ceticismo e à dúvida cética, que é real e positiva (a dúvida cartesiana, como se verá, é fictícia).

O século do racionalismo é um tempo em ebulição. A Europa já atingira a Alta Renascença, a imprensa de Gutenberg é já secular. Lutero lançara as bases da Reforma e a Igreja contra-ataca; católicos e protestantes se dividem em embates sangrentos. Copérnico já fizera, um século antes, sua revolução heliocêntrica, mas Galileu desafia ainda a autoridade da Igreja (Giordano Bruno já queimara no fogo da inquisição). Michel de Montaigne apregoa seu ceticismo e a França, sob o longo reinado de Luis XIV, entrevê os anúncios da grande Revolução Liberal.

É neste cenário que se consolida o Racionalismo Francês. René Descartes é seu maior expoente, e a despeito da defesa veemente da razão, é um crente sincero...
Eu venerava nossa teologia, e pretendia, tanto quanto qualquer outro, ganhar o céu; mas, tendo aprendido, como coisa muito certa, que o caminho não é menos aberto aos mais ignorantes do que aos mais doutos, e que as verdades reveladas, que a ele conduzem, estão acima da nossa inteligência, não teria ousado submetê-las à fraqueza dos meus raciocínios, e pensava que, para empreender examiná-las e ser bem-sucedido, era necessário ter alguma assistência extraordinária no céu, e ser mais que um homem.
(O discurso do método)

Para Descartes o homem é, essencialmente, um ‘animal racional’ – para além do ‘animal político’ de Aristóteles – donde ‘razão’ e ‘bom-senso’ lhe são inerentes; intrinsecamente inerentes, com o perdão do pleonasmo. Contudo, este mesmo homem dotado de uma mesma razão inata, não é capaz de bem conduzi-la na sua busca pelo conhecimento. Eis aí a necessidade de uma ordem, ou de um ‘método certo, simples e universal’ que aponte o caminho para o verdadeiro saber, o qual advirá das intuições inatas mais simples e fundamentais, ou seja, do conhecimento ‘a priori’. Destarte, compõem o ‘método cartesiano’ tanto a ‘intuição’, que é inerente ao ser, quanto a ‘dedução’, que daquela advém, porquanto resulte dos princípios verdadeiros e apriorísticos irrefutavelmente reconhecidos.

Ainda segundo o filósofo francês, tudo o que não possa ser objeto da dúvida metódica (diferente da dúvida cética, que não acredita na possibilidade de se atingir a Verdade de coisa alguma) deve ser rejeitado; ao passo que devem ser aceitas as coisas indubitáveis, as quais se impõem com absoluta certeza como as ‘Verdades Primeiras’ atingidas pela via da dúvida metódica, voluntária, sistemática e, sobretudo, provisória.

‘Cogito, ergo sum’, e se penso e existo, duvido. Eis a primeira Verdade, a qual emerge após se duvidar de tudo, e advém da rejeição ao que não se pode duvidar.

‘Algum deus deve existir’, poderia ser a segunda Verdade. Se a primeira certeza afirma ‘eu penso’, ao pensamento vincula-se a idéia de alma, vinculada por sua vez à idéia de ‘Eu’. O primado do espírito e a sua distinção do corpo – tese do dualismo cartesiano – importam em admitir a existência de um deus com base em dois argumentos: o ontológico, que impõe à razão tal existência; e o contingente, que assume que, se, por definição, o Ser Perfeito é aquele que possui todas as perfeições, e se a própria existência é uma perfeição, logo, o Ser Perfeito existe.

Ainda sob o ponto de vista do dualismo cartesiano, a natureza material não possui, por si só, profundidade e finalidade: ela simplesmente existe, e existe sob a constante e perpétua ‘criação’ do Ser Perfeito. Nós, partícipes dessa mesma natureza material, embora a percebamos na sua dimensão da ‘extensão’, não possuímos elementos para percebê-la na sua ‘essência’, do mesmo modo que também não percebemos a nossa própria essência. De sorte que, se o homem concreto não se identifica com a sua própria alma, há que transcendê-la, a ela e a um certo deus, para que possa assim elaborar, pela reflexão metódica, uma concepção puramente racional e mecânica da natureza.

Portanto (ou todavia, a escolha é sua, leitor), pela via do método certo e universal, o Racionalismo Cartesiano procura chegar ao conhecimento de todas as coisas transcendendo a realidade da existência de um deus, ou independente dela, segundo um modelo puramente mecanicista. Para tal, há que se ter em mente a primazia da razão, pois se a ‘Árvore do Conhecimento’ – que é a própria Filosofia – possui a Metafísica como raízes, a Física como tronco, e os ramos como as demais ciências, a sua seiva é a Razão. A mesma Razão que permite ao homem explorar a natureza tão-somente despojada de finalidade, desprovida do componente divino, apesar de levado a assumir que a sua essência pertença a esse suposto 'criador'. O homem compreenderia a natureza das coisas apenas por seu atributo de ‘extensão’, ao qual se reduzem matéria, corpo e a própria vida, pois somente assim, reduzidos, podem se submeter à autoridade da Razão.

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Uma pausa, para respirar, na série fé X razão. No próximo post, poesia (e poesia internética, sim, por que não?...). A série volta depois desse respiro.

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Censo 2010 - Casais congêneres, por (tímida) amostragem

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Trago da Revista Entremundos um dado e uma análise muito interessantes e da mais alta relevância. O blog os reproduz (e se o faz, é porque tem algo a dizer a respeito) com a premissa de que não haveria razões para que a sua reprodução não fosse autorizada pelo editor da revista, Gabriel Mallet Meissner.

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Há pelo menos 60.000 casais homossexuais no Brasil, segundo números oficiais do Censo 2010


No Censo 2010 parou-se de tapar o sol com a peneira e, pela primeira vez, passou-se a se estimar o número de uniões homossexuais no Brasil. Até então, o Censo simplesmente desconsiderava a possibilidade de existirem casais homossexuais e eles não entravam nas estatísticas. Agora eles passam a “existir” em números oficiais do governo. Um grande avanço, sem a menor dúvida, pois este é um dado útil na formulação políticas públicas que visem garantir os direitos de homossexuais na Brasil. Segundo reportagem da Veja, 60.002 brasileiros declararam ter um cônjuge do mesmo sexo, seja este reconhecido ou não pela justiça como tal.

Claro que este número ainda não pode ser considerado confiável. É apenas um indicativo. A quantidade de casais homossexuais provavelmente é bem maior do que este, pois muita gente que responde à pesquisa do Censo – por medo do preconceito – não dá a resposta correta. Este fenômeno é conhecido. O mesmo acontece há décadas com as religiões afro-brasileiras: muitos umbandistas e candomblecistas declaram-se espíritas ou católicos no Censo, devido ao preconceito.

De todo modo, mesmo ainda pouco confiável, a estatística é importante. Há, no mínimo, 60.002 casais homossexuais no Brasil. Este número não pode ser desprezado. São cidadãos que merecem ter seus direitos respeitados como qualquer outro brasileiro. O que não acontece atualmente, haja visto não apenas a grande quantidade de agressões homofóbicas que temos visto noticiadas na mídia e os 78 direitos civis negados a GLTBs. Agora pode-se começar a dimensionar, por exemplo, o universo de casais homossexuais a quem são negados o direito fundamental ao casamento civil.

Sempre que se discute projetos como o Kit Contra a Homofobia e o PL 122/06, surge uma multidão de críticos afirmando que estes projetos são irrelevantes. Agora pode-se dizer, por exemplo, que apenas no Sudeste, tais projetos são relevantes a 32.202 casais, ou 64.404 cidadãos brasileiros (isso, sem contar o resto do país). Como é que projetos que impactam na vida de uma população deste montante não é relevante?

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Análise do blog:

Como se lê no artigo, 60 mil brasileiros declaram ter um côjuge do mesmo sexo. Ou seja, grosso modo, podemos depurar que 30 mil casais se declaram homoafetivos de fato (a se assumir que cada parceiro de cada casal assim se declarou). 60 mil ou 30 mil, de qualquer modo, são números insignificantes se confrontados com os cerca de 200 milhões de habitantes que o Censo 2010 apurou. Mas a questão premente, estatística a parte, é: por que esses números não são maiores?... Ora, a princípio, precisamente pelo que o próprio autor do artigo detecta quando escreve: "pois muita gente que responde à pesquisa do Censo – por medo do preconceito – não dá a resposta correta". Mas no fim das contas, o que queremos todos (a Entremundos e este blog) dizer é que, certamente, há, com efeito, um número muito maior de uniões homoafetivas do que essas que os números oficiais revelam; número, aliás, que podería ser ainda muito mais expressivo se não houvesse há décadas - ou séculos - essa cultura do preconceito, do medo e da moral religiosa-conservadora que ainda permeia a sociedade (inclua-se aí, se não houvesse, há tempos, a desídia do Estado com relação a esse tema).

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quarta-feira, 27 de abril de 2011

"O 'Racionalismo' Cristão Medieval"

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No último ensaio, surge a Patrística, e com ela a Idade Média.
Agora, no apogeu do pensamento filosófico cristão, Tomás de Aquino enfrenta  a dissidência fundamentalista. É o começo do fim de um longo e obscuro período na história da filosofia.

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"O 'Racionalismo' Cristão Medieval"

Frade dominicano e teólogo, Tomás de Aquino é o maior representante da Escolástica no seu apogeu. Contudo, são os seus antecessores os responsáveis por lançar os fundamentos desta escola filosófica medieval, que busca conciliar o ideal de racionalidade, corporificado na tradição grega do platonismo e do aristotelismo, com a experiência da Revelação, tal como a concebe a fé cristã.

Um par de séculos antes de Tomás de Aquino publicar sua Suma Teológica, Anselmo de Cantuária – tido como fundador da Escolástica Medieval – retoma com redobrado vigor o projeto de integração razão-fé iniciado por Agostinho, e adota como princípio fundamental a máxima ‘fides quarens intelectum’ (a fé na busca da compreensão). Com efeito, para o mentor do Argumento Ontológico para a existência de deus*, é necessário primeiro crer para depois buscar o entendimento sobre o que se crê. Apesar da sua fé na revelação, Anselmo manifesta grande confiança na razão enquanto instrumento de compreensão dos dogmas revelados.

O segundo ‘pai’ da Escolástica é Pedro Abelardo, que embora leve adiante o esforço de Anselmo para explicar racionalmente a fé, deste acaba dissidindo. Além de formulador do Conceitualismo**, o que o eleva à condição de maior teólogo e filósofo escolástico do século XII, Abelardo também se notabilizaria por sua malograda história de amor pela bela Heloísa, narrada na sua obra História das Minhas Calamidades.

Quando professor em Notre-Dame, Abelardo torna-se preceptor de Heloísa a convite do cônego Fulbert, tio da bela e culta jovem. Apaixonados, os jovens mantêm por dois anos uma relação secreta, até que Heloísa se descobre grávida; o casal foge e se casa em segredo. Sentindo-se enganado, Fulbert arquiteta sua vingança. Certa noite, a mando do cônego, um grupo invade a casa de Abelardo e o castra; humilhado, o jovem se retira para a Abadia de Saint-Denis, enquanto Heloísa torna-se freira no Mosteiro de Argenteuil.

Talvez por influência da própria história, Abelardo, muito embora seja ele próprio um religioso, acaba por ultrapassar com o seu pensamento os limites da ortodoxia cristã, donde advém a sua ruptura com Anselmo, de orientação mais conservadora. Na sua obra Dialética, o pensador propõe um exame crítico das escrituras à luz da razão, de modo a submeter os dogmas da fé à exigência crítica do processo dialético –  caberia, portanto, à razão o ultimato para a solução das questões controversas entre os dois fundamentos. Todavia, noutra obra de Abelardo –  esta de cunho apologético, enquanto Dialética se insere no contexto da Lógica – é possível detectar uma contradição:
(...) onde não é a razão que dá o assentimento, tampouco pode ela refutar qualquer coisa. (...) Quem poderá refutar (uma abominação teológica) se se exclui toda discussão no domínio da fé?
(Diálogo entre um Filósofo, um Judeu e um Cristão)

Caberá, portanto, a Tomás de Aquino superar as posições ambíguas de seus antecessores que, ao abordarem a relação entre fé e razão, acabam por confundi-las. A filosofia tomista, por sua parte, não opõe um conceito ao outro, mas os distingue; e assim distintas, uma – a razão humana imperfeita – está subordinada à outra – a razão divina que, segundo o filósofo, é perfeita.
Para a salvação do homem, é necessária uma doutrina conforme a revelação divina, além das filosóficas, investigadas pela razão humana. Porque, primeiramente, o homem é por Deus ordenado a um fim que lhe excede a compreensão racional, segundo a Escritura (Is 64, 4): “O olho não viu, exceto tu, ó Deus, o que tens preparado para os que te esperam”. Ora, o fim deve ser previamente conhecido pelos homens, que para ele têm de ordenar as intenções e atos. De sorte que, para a salvação do homem, foi preciso, por divina revelação, tornarem-se-lhe conhecidas certas verdades superiores à razão.
Mas também naquilo que de Deus pode ser investigado pela razão humana, foi necessário ser o homem instruído pela revelação divina. Porque a verdade sobre Deus, exarada pela razão, chegaria aos homens por meio de poucos, depois de longo tempo e de mistura com muitos erros; se bem do conhecer essa verdade depende toda a salvação humana, que em Deus consiste. Logo, para que mais conveniente e segura adviesse aos homens a salvação, cumpria fossem, por divina revelação, ensinados nas coisas divinas. Donde foi necessária uma doutrina sagrada e revelada, além das filosóficas, racionalmente adquiridas.
(Suma Teológica)

Todavia, e naturalmente, Tomás de Aquino não alcança unanimidade entre os pensadores cristãos da sua época. Os que o sucedem, em vez de consolidar as bases do seu pensamento, o questionam, sobretudo sob um ponto de vista fundamentalista, assentado sobre a "verdade" e a "revelação" absolutas, bem como sobre a absoluta autossuficiência da fé, o que virá a caracterizar a dissolução da Escolástica Medieval.

Deste modo, se de um lado firmam-se irredutíveis sob os umbrais da fé os que a defendem como único e último argumento (John Duns Scot e Guilherme de Ockhan são alguns desses defensores fundamentalistas da revelação), do outro, abre-se o caminho para a filosofia moderna, a qual buscará a total autonomia da razão e da ciência em relação aos dogmas da religião.

(*) O Argumento Ontológico baseia-se na demonstração de que a existência de deus pode ser provada a priori, pois se trata de uma verdade evidente à razão e à intuição, não apenas afirmada pela revelação.
(**) Doutrina medieval que atribui às idéias gerais os universais, isto é, uma concretude específica que os distingue das abstrações ou sinais linguísticos, ao passo que possuem forma real e existente, mas somente no interior da mente humana.

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Próximo post: "O Renascimento da Razão"

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terça-feira, 26 de abril de 2011

"Patrística, Escolástica e Idade das Trevas"

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Na série sobre o conflito fé/razão sob o enfoque da filosofia, no último post os grandes filósofos do Período Socrástico, sobretudo Platão e Aristóteles, procuram pensar o divino racional e especulativamente.
Nesta postagem: com a consolidação do cristinismo como religião oficial de Roma, surgem os primeiros pensadores cristão - assim chamados "Pais da Igreja" - e a sua Patrística, precursora da filosofia Escolástica e do período apropriadamente chamado de Idade das Trevas.

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Patrística, Escolástica e Idade das Trevas

A tentativa de refutar uma lógica sistemática sobre deus, tal como a concebeu Aristóteles, deve admitir, segundo as palavras do próprio sábio, que “o mundo brota (ou brotaria) da noite, da confusão universal do não-ser”, como quer a metafísica. Não por acaso, a tentativa de uma suposta conciliação entre fé e razão terá suas bases lançadas ainda no século IV d.C. por Agostinho de Hipona, um seguidor de Platão, mas somente terá consistência muito tempo depois, mais precisamente no século XIII da cristandade. Será Tomás de Aquino, um seguidor de Aristóteles, o responsável por tomar de empréstimo da peripatética a estrutura racional a permitir o confronto e a (suposta) conciliação do pensamento filosófico com a fé cristã, até então puramente dogmática.

Mas, se será o pensamento tomista o responsável por legar ao cristianismo certa estrutura racional, que aliás permitirá que a religião ainda se imiscua no ambiente crescentemente leigo a ser instalado nos fins da Idade Média, é muito antes disto, no início do mesmo período histórico, que Agostinho estabelece os fundamentos de tal legado.

Aurélio de Agostinho, natural de Tagaste, na atual Argélia, é ele próprio um relativista. Professor de Retórica em Milão, é adepto do maniqueísmo* e dono de uma profunda cultura humanista. Talvez desses mesmos traços marcantes, anteriores à sua conversão, é que advenha o empenho em superar o ceticismo da Nova Academia**, que, segundo ele, é incompatível com a verdadeira doutrina platônica, sua grande influência a partir da conversão.

Antes dele, porém, dois outros membros da mesma Patrística – a nascedoura filosofia cristã dos ‘Pais da Igreja’ – digladiam-se em atitudes opostas perante o legado clássico. Justino, de cultura grega, defende que o logos divino já se manifestava, ainda que de modo imperfeito, na intuição investigativa dos filósofos gregos, mas que somente viria a se apresentar de maneira plena após a revelação do verdadeiro logos, o Cristo. Tertuliano, seu opositor de cultura latina, relega ao engano e ao erro qualquer produto da razão humana, de modo que o legado grego não teria vislumbrado mais do que meros vestígios da 'Razão Absoluta'. Segundo ele, única e exclusivamente pela fé se revela ao homem o verdadeiro logos divino. Escreveria Tertuliano:
Com efeito, que existe de comum entre Atenas e Jerusalém? Que acordo pode haver entre a Academia e a Igreja? (...) Longe de vós qualquer tentativa de produzir um cristianismo mitigado com estoicismo, platonismo ou dialética. Depois que possuímos a Cristo (...) basta-nos a fé, pois não pretendemos ir atrás de outras crenças.
(Sobre a prescrição dos Hereges)

Agostinho, como Justino, não despreza o legado clássico. Ao contrário, vê no platonismo a mais pura e luminosa filosofia da antiguidade. Assim procura indicar, ombreando vocação filosófica e fé na revelação, o caminho para a solução do problema das relações entre ambas, a fé e a razão. O autor dos Solilóquios, das Confissões e de A Cidade de Deus, deseja ardentemente penetrar e compreender com a razão o conteúdo da própria fé. Embora com as evidentes ressalvas, é meritória a sua antecipação, em mais de um milênio, de fundamentos do racionalismo francês e do cogito cartesiano:
(...) pois ninguém duvida que uma dupla força nos impele à busca do conhecimento: a autoridade e a razão. Para mim, é certo que nunca devo afastar-me da autoridade de Cristo, pois não encontro outra mais firme. Quanto às questões que devem ser investigadas criticamente pela razão (...) espero encontrar entre os platônicos, o que não esteja em contradição com a nossa fé.
(Contra Acadêmicos)
De forma alguma temo os argumentos dos acadêmicos quando perguntam: mas, e se te enganas? – Se me engano, existo, pois quem não existe não pode sequer se enganar.
(A Cidade de Deus)

Todavia, longe de solucionar o sinuoso conflito entre fé e razão, o Bispo de Hipona ainda o legará aos seus sucessores escolásticos, ainda que relativamente apascentado e assentado sobre alguma base teórica. Destes, talvez será Tomás de Aquino o que mais se deixará influenciar pela filosofia grega, embora tenha em Aristóteles, não em Platão, sua maior inspiração.

* Dualismo religioso sincretista ensinado pelo sábio persa Mani, que afirma a existência de um conflito cósmico entre Bem e Mal; a matéria, segundo a doutrina, pertence ao reino do Mal, impondo-se portanto ao homem o dever de pelejar pelo Bem por meio de práticas ascéticas, como a abstenção à procriação e aos alimentos de origem animal.

** A antiga Academia de Platão expunha e comentava uma doutrina como expressão da Verdade; a nova Academia coloca em questão essa Verdade e a critica, no que se conduz ao ceticismo.

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(Próxima postagem: "O 'Racionalismo' Cristão Medieval")
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segunda-feira, 25 de abril de 2011

"Os Discípulos do 'Bom Sofista'"

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Na última postagem da série sobre fé e razão, os pré-socráticos e a metafísica  apartada do "pensar em deus". Neste ensaio, Sócrates, Platão e Aristóteles repensam o divino.

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Os discípulos do 'bom sofista'

Discípulo de Sócrates e mestre de Aristóteles, Platão de Atenas (Arístocles, segundo alguns) lança as fundações sobre as quais se arquitetará toda a filosofia ocidental. Pela noção de que o homem está permanentemente em contato com as realidades sensível e inteligível, o fundador da Academia restabelece com propriedade a união entre a physis e o nômos; por sua concepção da Teoria das Formas, a dinâmica humana volta a se estabelecer sobre bases permanentes, sustentada por algo absoluto, eterno e imutável – o Mundo das Idéias. Assim, o Ideal Platônico reassume o "pensar em deus" calcado em fundamentos racionais; e relega, definitivamente, o misticismo e a crença a um plano secundário. Seu legado influenciará, em maior ou menor grau, os próximos milênios do pensamento filosófico.

Mas será em Aristóteles, seu discípulo, que o pensamento especulativo-racional sobre o divino assumirá contornos mais lógicos e sistemáticos, até então inéditos no contexto do metafísico e do sobre-humano. Para o preceptor de Alexandre Magno, deus seria o Primeiro Ato e o Ato Puro, o primeiro de uma série de atos decorrentes que, por sua vez, antecedem uma série de Potências, isto é, a série de forças motrizes de toda e qualquer transformação, de todo e qualquer movimento e de toda e qualquer geração, sejam esses conceitos inerentes ao domínio do natural – physis – ou à esfera artificial – nômos.

Ainda segundo o sábio de Estagira, a natureza desse Primeiro Ato (que seria deus) é inteligível ao homem tão-somente pelo que não é, pois o que é não se pode dizer com os recursos dos limitados artifícios do intelecto e da linguagem. Dele se exclui tudo o que seja imperfeito, limitado ou dividido; nele não há nada de acidental, de material ou de potencial; nele há o que há, pois ele é o que é (note-se a associação com o nome hebraico YHWH – ou Javéh, transliterado – que significa precisamente ‘aquele que é’). Nesta inefável plenitude do seu próprio ‘Ser’, este ente absolutamente perfeito é o Pensamento que se pensa a sim mesmo, é a Consciência que repousa na plena posse de si mesma, é o incontingente que a tudo contém (aqui, o filósofo clássico antecipa em dois milênios o argumento da contingência do filósofo racionalista).

Deus subsistiria, enfim, como perfeita acepção de si mesmo na absoluta contemplação de sua própria, eterna e plena existência; e para o homem, é ideal inalcançável, embora (quase) sempre buscado.

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(No próximo post: Patrística, Escolástica e Idade das Trevas)
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domingo, 24 de abril de 2011

"Sensível versus Inteligível"

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O Pensador, Rodin
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Na primeira parte da série sobre religião e filosofia, o homem cria deus e surgem as primeiras, por assim dizer, "filosofias religiosas". Nesta segunda parte, os filósofos pré-socráticos inauguram o pensamento metafísico.

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Sensível versus Inteligível

Após Pitágoras, e durante um período secular de rica e profunda atividade intuitiva, o embate entre teses opostas busca explicar a verdadeira natureza das coisas pela oposição de noções fundamentais: sensível versus inteligível, pluralidade versus unidade, movimento versus repouso... Heráclito, Zenão e Demócrito são expoentes deste período, caracterizado não apenas pela intensa oposição de ideias, mas por um sensível distanciamento do pensamento teísta.

Não obstante o afastamento do “pensar em deus”, no calor do debate ressurge a questão fundamental: o “vir a ser” sem o “vir do não-ser”. Manifesta-se novamente a questão da pré-existência de uma força criadora, que pressupõe, filosoficamente, a existência de um ser primordial, eterno e imutável – um deus.

Todavia, naquele momento de grande inquietação dos pensadores desprendidos de outros propósitos que não fosse o puro e o livre-pensamento, entram em cena os sofistas. Homens de grande saber, dotados de magnífica retórica, os sofistas ensaiam uma mudança nos rumos da nascente filosofia – agora propriamente dita – direcionando o pensamento filosófico para objetivos práticos, para resultados políticos e para propósitos meramente tempestivos. Usam a palavra com maestria, e pelo uso desta retórica soberba e pujante procuram convencer seus discípulos de que não há verdade fundamental, não há ciência absoluta, pois, se o homem é a medida de todas as coisas*, tudo o que há pode ser ou pode não ser, a depender exclusivamente do poder de convencimento de quem defende uma ou outra posição.

Pela voz dos sofistas, physis e nômos estão irremediavelmente cingidos: o primeiro princípio se alicerça nos seus próprios fundamentos; o segundo não possui outro fundamento senão o arbítrio da convenção humana.

E assim seguiria o curso das coisas, não fosse o surgimento do assim chamado “o bom sofista”, ou “o verdadeiro filósofo”. O desprendido e abnegado amante do saber que busca, pelo recurso da dialética, reassociar os fundamentos do mundo sensível, do conhecimento e dos valores absolutos ao sólido fundamento do nômos. Aquele para quem a função do mestre é ajudar o discípulo a lembrar – ou “re-conhecer” – as verdades adormecidas em sua alma; aquele que, consciente da própria ignorância, busca despertar no seu discípulo essa mesma consciência. Diz-se fadado a espicaçar seus concidadãos “como um moscardo”, despertando-os da ignorância inconsciente em que se comprazem. E assim o faz, com a sua filosofia revolucionária, que desloca o eixo da reflexão da natureza para o homem, que concentra o pensamento na apreensão e na definição das essências (do inteligível), que define o universo como próprio da ciência, que contesta, que incomoda e que prepara o caminho para o futuro de toda a filosofia. Sócrates é o nome deste “profeta”, e seu “evangelista” é Platão... Que irá ainda muito, muito mais além...

*A máxima de Protágoras de Abdera, "o homem é a medida de todas as coisas, das coisas que são, enquanto são, das coisas que não são, enquanto não são", expressa com propriedade o relativismo dos sofistas.

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(Próxima postagem: Os Discípulos do 'Bom Sofista')
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sábado, 23 de abril de 2011

"Faça-se Deus"

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Saturno devorando um filho, Paul Rubens (detalhe)
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A partir de hoje, o blog trará uma série de postagens sobre as religiões e seus deuses (com ênfase no tronco judaico-cristão) pela perspectiva do pensamento filosófico; e sobre o consequente (e inevitável) conflito entre fé e razão.

Nesta introdução, o homem cria deus e surgem as primeiras "filosofias religiosas".

(Alerta: não se pretende realizar aqui um tratado com rigores acadêmicos sobre tema, uma vez que o blog não possui elementos teóricos para isso. Tratam-se, basicamente, de impressões gerais recolhidas de leituras afins, organizadas sobre um eixo de compilações das mesmas leituras. As referência bibliográficas serão apresentadas no final da série).

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"Faça-se Deus"

Desde que sepulta seus mortos, e sabe que será um dia ele próprio sepultado, o homem jamais deixou de pensar em deus, ou nos deuses. No começo, o “pensar em deus” suscita mitos e crenças, apenas, pelos quais se procura explicar tudo, desde um relâmpago, até o caráter do próprio deus em questão.

O tempo passa, surge algo novo. Agora, uma nova faculdade é usada para a compreensão das realidades física e humana – e também sobre-humana, ou metafísica. Entra em cena a especulação racional, o homem começa a pensar em deus “filosoficamente”.

Os primeiros assim chamados “filósofos”, mais preocupados com a physis (princípios naturais, eternos, imutáveis) do que com o nômos (leis e convenções humanas, costumes, regras de conduta) voltam sua atenção para os fenômenos naturais, procurando entendê-los e explicá-los sem a interferência do mito e da crença. As explicações meramente causais, todavia, não bastam ao espírito inquieto daqueles homens, que passam a buscar a compreensão do “princípio” de cada fenômeno, a causa primeira de tudo o que há.

Inaugura-se, portanto, uma transição, mas que somente se levará a efeito mais tarde. É a transição do pensamento sobre o “sensível” para o pensamento sobre o “inteligível”. Milésios e pitagóricos são os agentes germinais desta revolução. O próprio Pitágoras talvez seja o primeiro a pensar o divino de um modo especulativo-racional. Seus seguidores, a exemplo do mestre, abandonam a religião homérica oficial – calcada em mitos e lendas – e experimentam o que se pode chamar de uma primeira “filosofia religiosa”, ou de uma primeira “religião filosófica”; a imortalidade da alma e a metempsicose* são os fundamentos desta nova corrente de pensamento.

*Doutrina que professa a crença no movimento cíclico do espírito, que retorna à existência material após a morte do antigo corpo; doutrina da reencarnação
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(Próxima postagem: "Sensível Versus Inteligível")

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domingo, 17 de abril de 2011

Inícios

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O primeiro parágrafo, a primeira frase, a primeira linha, o começo, enfim, de um livro, pode ser um atrativo tão importante quanto o título, o resumo ou a capa. Um bom início pode encorajar a leitura, bem como determinar o estado de espírito positivo do leitor para ler o que se segue.

Como pode também entrar para história.

Algumas obras consagradas da literatura universal possuem, além da qualidade que naturalmente as consagrou, inícios brilhantes, tão ou ainda mais famosos que a própria obra. Quer pela elegância do período, quer pelo impacto que provocam, há inícios memoráveis, lembrados e citados e comemorados como ícones das próprias obras que inauguram.

A seguir, uma coletânea (recolhida de livros que gosto e que estão à mão) de alguns destes notáveis cartões de visitas. Uns são elegantes e requintados, outros são obscuros e desconcertantes, mas todos são, pra começo de conversa, inesquecíveis.

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“Uma noite, eu estava sentado na cama do meu quarto de hotel, em Bunker Hill, bem no coração de Los Angeles. Era uma noite importante na minha vida, porque eu precisava tomar uma decisão quanto ao hotel. Ou eu pagava ou eu saía: era o que dizia o bilhete, o bilhete que a senhoria havia colocado debaixo da minha porta. Um grande problema, que merecia atenção aguda. Eu o resolvi apagando a luz e indo para a cama.”

John Fante, Pergunte ao pó; tradução de Roberto Muggiati. – 9ª edição – Rio de Janeiro : José Olympio, 2011.

Sobre o início emblemático de Pergunte ao pó, que atira aos ombros do leitor o alívio desse peso antes mesmo de prepará-lo para a carga que se segue, devo dizer que há outra tradução, de Paulo Leminski, para uma edição da Editora Brasiliense de 1984. Tive notícias de que esta é mais leal ao estilo do autor – mais pó, menos chão.

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“Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o quê, mas sei que o universo jamais começou.”

Clarice Lispector, A hora da estrela; Rio de Janeiro : Rocco, 1998, 1ª edição.

Com esse início intrigante, Clarice prepara o leitor para a saga de Macabéa, que, antes de ser indivíduo, é o universo do seu deus, o escritor. O primeiro período da obra já sugere a densidade de um livro de muitas vertentes, que situa a própria linguagem no plano do enredo. O autor – alheio ao ‘deus’ que escreve, e que é o próprio ato de escrever – é personagem que narra a história de outra personagem – alheia à própria existência. Do ponto de vista do ‘deus’ que escreve, a linguagem se situa num plano intermediário para fazer parte da história. E por trás de tudo isso, Clarice Lispector.

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“Se querem mesmo ouvir o que aconteceu, a primeira coisa que vão querer saber é onde nasci, como passei a porcaria da minha infância, o que meus pais faziam antes que eu nascesse, e toda essa lenga-lenga tipo David Copperfield, mas, pra dizer a verdade, não estou com vontade de falar sobre isso.”

J. D. Salinger, O apanhador no campo de centeio; tradução de Álvaro Alencar e outros. – 5ª edição – Rio de Janeiro : Editora do Autor, 1965.

Nessa abertura, o personagem “pós-niilista” de Salinger já sugere, inconteste, ao que veio. A sua existência de personagem é a propósito de nada, exceto o da profunda angústia da sua própria existência; que o leiam, os que assim o suportarem.

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“Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso. Estava deitado sobre suas costas duras como couraça e, ao levantar um pouco a cabeça, viu seu ventre abaulado, marrom, dividido por nervuras arqueadas, no topo do qual a coberta, prestes a deslizar de vez, ainda mal se sustinha. Suas numerosas pernas, lastimavelmente finas em comparação com o volume do resto do corpo, tremulavam desamparadas diante dos seus olhos.”

Franz Kafka, A metamorfose; tradução e posfácio de Modesto Carone. – São Paulo : Companhia das Letras, 1997.

Clássico! Sobre esse início basta dizer que não se concluirá, jamais.

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“Num lugar de La Mancha, de cujo nome não quero lembrar-me, vivia, não há muito, um fidalgo, dos de lança em cabido, adarga antiga, rocim fraco, e galgo corredor.”

Miguel de Cervantes Saavedra, O engenhoso fidalgo Dom Quixote de la Mancha; tradução de Visconde de Castilho e Azevedo. – São Paulo : Nova Cultural, 2002.

Clássico dos clássicos! A vaga e levemente caricata descrição do personagem já sugere seu universo caótico e... Quixotesco!

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“No dia em que o matariam, Santiago Nasar levantou-se às 5h30m da manhã para esperar o navio em que chegava o bispo. Tinha sonhado que atravessava um bosque de grandes figueiras onde caía uma chuva branda, e por um instante foi feliz no sonho, mas ao acordar sentiu-se salpicado de cagadas de pássaros”.

Gabriel García Márquez, Crônica de uma morte anunciada; tradução de Remy Gorga, filho. – 36ª edição – Rio de Janeiro, Record, 2007.

Destino ou acaso?... O todo-poderoso onisciente narrador lança, já na primeira oração, o desfecho da trágica aventura do seu personagem, o anti-herói que, já aqui, se deixa retratar pelo viés do burlesco.

(Este é o primeiro da série de três inicios selecionados da obra de García Márquez, meu autor preferido durante muitos anos; perdoem, portanto, o meu gosto).

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“No ano de meus noventa anos quis me dar de presente uma noite de amor louco com uma adolescente virgem”.

Gabriel García Márquez, Memórias de minhas putas tristes; tradução de Eric Nepomuceno. – 13ª edição – Rio de Janeiro, Record, 2006.

Às favas as regras burguesas e a moral religiosa! Aos noventa anos de idade qualquer personagem pode se dar ao prazer de um desejo “escandaloso”. Sobretudo quando tal personagem existe sob a imaginação de um autor cuja pena, há décadas, subverte a realidade. Memórias de minhas putas tristes, como sugere o seu início, confirma o vigor narrativo e a vitalidade que persistem nas mãos provavelmente já sarapintadas de manchas senis do velho Gabo.

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“Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo. Macondo então era uma aldeia de vinte casas de barro e taquara, construídas à margem de um rio de águas diáfanas que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos”.

Gabriel García Márquez, Cem anos de solidão; tradução de Eliane Zagury; ilustrações de Carybé. – 59ª edição – Rio de Janeiro, Record, 2006.

Aquele que dentre vós for capaz de abandonar a leitura depois de um início desses, atire a primeira pena. A saga dos Buendía na fictícia Macondo se apresenta num correr de tempo relativo e impreciso, mas que acaba por se definir claramente numa época de importantes transições históricas e culturais, sem mencionar os intensos e obscuros conflitos psicológicos que se seguem. E esse início é, de tudo isso, a ignição.

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“Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: ‘Sua mãe faleceu. Enterro amanhã. Sentidos pêsames.’ Isso não esclarece nada. Talvez tenha sido ontem.”

Albert Camus, O estrangeiro; tradução de Valerie Rumjanek. – 26ª edição – Rio de Janeiro, Record, 2005.

Com a palavra, o autor.
No prefácio, escrito em janeiro de 1955, Camus destaca o seguinte trecho: ‘Em nossa sociedade, qualquer homem que não chore no funeral de sua mãe, corre o risco de ser sentenciado à morte’. E, a seguir, comenta: ‘Eu quis dizer que o herói do meu livro é condenado porque não joga o jogo. (...) Uma ideia mais precisa do personagem emergirá se alguém perguntar como Mersault não joga o jogo. A resposta e simples: ele se recusa a mentir. (...) Ele diz o que ele é, ele se recusa a esconder seus sentimentos, e imediatamente a sociedade se sente ameaçada’.
Como disse antes, com a palavra, o autor.

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“Era uma vez e uma vez muito boa mesmo uma vaquinha mu que vinha andando pela estrada e a vaquinha mu que vinha andando pela estrada encontrou um garotinho engrachadinho chamado bebê tico-taco.”

James Joyce, Um retrato do artista quando jovem; tradução de Bernardina da Silva Pinheiro. – Rio de Janeiro : Objetiva, 2006.

Comentários sobre Joyce, que os façam aos eruditos...

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“Os olhos no teto, a nudez dentro do quarto; róseo, azul ou violáceo, o quarto é inviolável; o quarto é individual, é um mundo, quarto catedral, onde, nos intervalos da angústia, se colhe, de um áspero caule, na palma da mão, a rosa branca do desespero, pois entre os objetos que o quarto consagra estão primeiro os objetos do corpo;(...)”

Raduan Nassar, Lavoura arcaica; São Paulo : Companhia das Letras, 1989.

E aqui conviria transcrever todo o primeiro capítulo, não fosse a volição de copiar, isto sim, o livro completo...

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“– Nonada.”

João Guimarães Rosa; Grande sertão: veredas; Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 2001, 19ª edição.

Nada a acrescentar... ‘Nonada’.

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"No princípio criou deus os céus e a terra..." ...Just kidding!

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Para mais sobre o tema, o blog indica (mas não recomenda, porque ainda não leu) “E a história começa – dez brilhantes inícios de clássicos da literatura”, de Amós Oz (Ediouro, 134 p., 2007)
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sexta-feira, 15 de abril de 2011

Reencontro

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Andava eu pela calçada. Observava a grama rala irrompida das trincas do pavimento, aspirava a atmosfera seca saturada de pó, sentia o sol a me queimar o cocoruto. Óbvio, era vinte e quatro de fevereiro, alto verão na metade sul do planeta, vinte para as duas da tarde no horário de Brasília – nesta época, nesta hora, nesta Brasília, se não chove, o sol lasca. Mesmo assim, andava eu pela calçada.

Padecia daquela ressaca que costumam chamar (e só por costume, porque até onde eu sei Homero nunca teve ressaca) de homérica. Vivia minha odisseia pós-etílica no trecho empoeirado entre o estacionamento de uma das quadras residenciais da Asa Norte e a sua entrequadra comercial – nesse tipo de endereço que só quem mora em Brasília entende.

Foram essas a data, a hora e o local que o infeliz escolheu pra se encontrar comigo. Curiosamente, o encontro seria na comercial da 115/116 Norte, precisamente no Johan Sebastian Bar, estabelecimento que, apesar do nome empolado, vinha sendo nos últimos tempos o boteco da minha melhor avaliação custo/benefício.

Aliás, isso merece um parêntese.

O 'Joãozinho' – apelido carinhoso pelo qual os clientes mais íntimos costumam se referir ao Bar – tem cerveja gelada, tem garçom eficiente e bem-humorado, tem preço razoável, bom e variado tira-gosto e banheiro a contento. São cinco, mais ou menos na ordem de importância, dos dez quesitos levados em conta pelos botequeiros mais exigentes; acessibilidade, ambiente, música, clientela e conforto seriam os outros.

Parêntese fechado, foi neste dia, neste horário e neste local que ele preferiu o encontro. Dia 24 de fevereiro, duas da tarde, no Joãozinho. E lá estava eu, depois de caminhar a maratona de quase cinquenta metros sob o sol escaldante deste verão que Niemeyer inventou. Lá estava eu naquela mesa anônima, o mais disfarçada possível dos olhos curiosos, no canto mais possível de ser canto do Joãozinho, dez para duas poeirentas horas da tarde daquela típica quarta feira brasiliense.

Aliás, era meu aniversário. Quarenta anos... Passados os trinta da razão, eu entrava na década perigosa...

Pedi um chope. Tomei de um gole, desceu quadrado. Pedi outro, depois mais outro – agora a garganta já amaciava. A parestesia do terceiro chope relaxou os músculos, mas eu continuava nervoso. E ansioso, e excitado. Aquele encontro seria importante demais para mim. Há tempos eu queria falar com ele, e falar francamente sobre um monte de coisas que se amontoaram desde a última vez que nos vimos.

Mas nada dele chegar...

Olhei o relógio pela enésima vez: ainda duas horas, o tempo não passava. Quase três chopes e várias espiadas no relógio em dez minutos. O tempo se arrastava... Começava a pensar que ele não viria mais, quando, mesmo em contraluz, reconheci aquele porte, aquele corte de cabelo, a forma daquele corpo que eu conhecia tão bem... Ele estava lá, parado junto à entrada do Joãozinho, a pesquisar por mim.

Ergui ligeiramente o torso e acenei, ele me viu e veio se aproximando. Aqueles breves segundos, ocupados pela densidade de um caminhar jovial e seguro, duraram muito mais que uma brevidade, como se o deslocamento da sua figura fizesse o tempo passar mais devagar, em câmara-lenta...

“Oi”, disse ele, muito seguro, com um sorriso discreto porém franco nos lábios finos e nos olhos pretos.

“Oi...”, claudiquei. “Senta aí”, implorei.

Bem posto na minha frente, ele olhava para mim com a segurança dos seus dezessete anos, com um ar ao mesmo tempo perquiridor e desafiante. Afinal, o que eu queria dele, depois de tanto tempo? Por que cargas d’água eu telefonara na noite anterior, num daqueles momentos de reflexão e introspecção ligeiramente etílicos que sempre resultam na mesma conclusão inarredável: “o passado já era, o futuro não é nada; contente-se, portanto, com o seu presente de merda”.

O que eu queria, na verdade, era ser resgatado do eu daquele agora, queria revisitar o passado, ser abduzido dessa verdade impertinente do presente, e somente esse reencontro haveria de me trazer alguma esperança...

Pois bem, ele anuíra ao encontro. E escolhera o dia, a hora e o local. Estava ali agora, senhor da situação, com todo o viço dos seus dezessete anos, com todo aquele brilho indelével no olhar que ainda não viu as caretas do mundo, com todo aquele ar satisfeito de quem pensa que a vida sorri, quando só arreganha os dentes. Ali estava ele, finalmente, diante de mim.

Mas eu, que tinha tanto o que falar, não sabia o que dizer. Emudeci de um mutismo tal que sequer conseguia expelir ar dos pulmões, quanto mais conciliar o raciocínio com a articulação das palavras. Vinte e três anos depois, estávamos nós dois frente a frente outra vez. Tantas perguntas, tantos afagos, queixas e histórias e rememórias, e eu ali, paralisado, mudo, hesitante, vacilante. Vinte e três anos depois, e eu não sabia o que dizer no momento do tão esperado e desejado encontro comigo... Sim, pois o rapaz sentado ali na minha frente... Aquele garoto cheio de vida na intensidade da sua juventude... era eu mesmo...

E eu ali paralisado... No preciso instante do reencontro comigo mesmo.
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quinta-feira, 14 de abril de 2011

Uma pequena joia

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Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter, ter deve ser a pior maneira de gostar.

José Saramago, O conto da ilha esquecida, p. 32 (*)

Gostar de Saramago, eu sempre gostei – ‘sempre’, a saber: desde que li Ensaio Sobre a Cegueira, primeira vez que me dispus a penetrar nesse novo, e a princípio enigmático, universo literário. Mas meu autor preferido continuava sendo García Márquez, como sempre fora desde a memorável leitura de Cem Anos de Solidão, lá pelos idos da baixa adolescência.

Acontece que me cai às mãos uma pequena joia, livreto de leves e palatáveis sessenta e poucas páginas, impressas com tipos grandes em papel Couché, mas com a mesma ironia, com a mesma visão ácida e peculiar do vivente a procurar viver sua única vivência no seu único possível mundo. Elementos típicos de José Saramago. Comprei para o meu filho de quatorze anos, trabalho escolar, ele leu e achou esquisito – óbvio (daqui a pouco ele vai fluir, e fruir, certamente). Chegamos a trocar impressões, eu falando do meu gosto pelo autor, ele falando da esquisitice que aquela fábula lhe pareceu.

Pois bem, García Márquez me perdoe, mas a fila andou.

Com esta pequena joia Saramago me abduziu definitivamente. Senão, vejamos o diálogo entre o aventureiro e a faxineira do rei, lá pela página quarenta (lembrem-se da ausência dos verbos dicendi e da economia de pontuação com a qual Saramago trata, como quem trata a própria amada, a sua querida língua portuguesa):

Que pensas fazer, se te falta a tripulação, Ainda não sei, Podíamos ficar a viver aqui, eu oferecia-me para lavar os barcos que vêm à doca, e tu, E eu, Tens com certeza um mester, um ofício, uma profissão, como agora se diz, Tenho, tive, terei se for preciso, mas quero encontrar a ilha desconhecida, quero saber quem sou eu quando nela estiver, Não o sabes, Se não sais de ti, não chegas a saber quem és, O filósofo do rei, quando não tinha que fazer, ia sentar-se ao pé de mim, a ver-me passajar as peúgas dos pajens, e às vezes dava-lhe para filosofar, dizia que todo o homem é uma ilha, eu, como aquilo não era comigo, visto que sou mulher, não lhe dava importância, tu que achas, Que é necessário sair da ilha para ver a ilha, que não nos vemos se não nos saímos de nós, Se não saímos de nós próprios, queres tu dizer, Não é a mesma coisa. (grifos meus)

Li numa sentada. Posso dizer, exato e empírico, que me demorou cerveja e meia. Todo o conto é uma exortação, quase uma advertência. Uma exortação lírica ao inconformismo, uma advertência poética para que se persiga o sonho (ou desejo, ou propósito, ou vontade...), mesmo o supostamente impossível, e apesar das adversidades, enquanto é tempo. Eu me senti pouco menos que o discípulo de um velho e sábio mestre.

O final, como todos os finais de Saramago, deixa um nó na garganta e te abandona numa dessas esquinas da comoção... Mas, do final não direi mais, dele você lerá. Claro, se estiver disposto a enfrentar o rei e a sair em busca da sua ilha desconhecida...

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(*) O Projeto Releituras disponibiliza a íntegra de O Conto da Ilha Desconhecida. Entretanto, recomendo a última reimpressão, muito atraente (apesar do preço), da Companhia das Letras, ilustrada com as belas aquarelas de Arthur Luiz Piza.
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terça-feira, 12 de abril de 2011

#EuSouGay

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(Abaixo, reprodução, na íntegra, da página de lançamento do projeto #EuSouGay, espalhe essa idéia)

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Sejamos Gays. Juntos.

abril 12, 2011

Adriele Camacho de Almeida, 16 anos, foi encontrada morta na pequena cidade de Tarumã, Goiás, no último dia 6. O fazendeiro Cláudio Roberto de Assis, 36 anos, e seus dois filhos, um de 17 e outro de 13 anos, estão detidos e são acusados do assassinato. Segundo o delegado, o crime é de homofobia. Adriele era namorada da filha do fazendeiro que nunca admitiu o relacionamento das duas. E ainda que essa suspeita não se prove verdade, é preciso dizer algo.

Eu conhecia Adriele Camacho de Almeida. E você conhecia também. Porque Adriele somos nós. Assim, com sua morte, morremos um pouco. A menina que aos 16 anos foi, segundo testemunhas, ameaçada de morte e assassinada por namorar uma outra menina, é aquela carta de amor que você teve vergonha de entregar, é o sorriso discreto que veio depois daquele olhar cruzado, é o telefonema que não queríamos desligar. É cada vez mais difícil acreditar, mas tudo indica que Adriele foi vítima de um crime de ódio porque, vulnerável como todos nós, estava amando.

Sem conseguir entender mais nada depois de uma semana de “Bolsonaros”, me perguntei o que era possível ser feito. O que, se Adriele e tantos outros já morreram? Sim, porque estamos falando de um país que acaba de registrar um aumento de mais de 30% em assassinatos de homossexuais, entre gays, lésbicas e travestis.

E me ocorreu que, nessa ideia de que também morremos um pouco quando os nossos se vão, todos, eu, você, pais, filhos e amigos podemos e devemos ser gays. Porque a afirmação de ser gay já deixou de ser uma questão de orientação sexual.

Ser gay é uma questão de posicionamento e atitude diante desse mundo tão miseravelmente cheio de raiva.

Ser gay é ter o seu direito negado. É ser interrompido. Quantos de nós não nos reconhecemos assim?

Quero então compartilhar essa ideia com todos.

Sejamos gays.

Independente de idade, sexo, cor, religião e, sobretudo, independente de orientação sexual, é hora de passar a seguinte mensagem pra fora da janela: #EUSOUGAY

Para que sejamos vistos e ouvidos é simples:

1) Basta que cada um de vocês, sozinhos ou acompanhados da família, namorado, namorada, marido, mulher, amigo, amiga, presidente, presidenta, tirem uma foto com um cartaz, folha, post-it, o que for mais conveniente, com a seguinte mensagem estampada: #EUSOUGAY

2) Enviar essa foto para o mail projetoeusougay@gmail.com

3) E só

Todas essas imagens serão usadas em uma vídeo-montagem será divulgada pelo You Tube e, se tudo der certo, por festivais, fóruns, palestras, mesas-redondas e no monitor de várias pessoas que tomam a todos nós que amamos por seres invisíveis.

A edição desse vídeo será feita pelo Daniel Ribeiro, diretor de curtas que, além de lindos de morrer, são super premiados: Café com Leite e Eu Não Quero Voltar Sozinho.

Quanto à minha pessoa, me chamo Carol Almeida, sou jornalista e espero por um mundo melhor, sempre.

As fotos podem ser enviadas até o dia 1º de maio.

Como diria uma canção de ninar da banda Belle & Sebastian: ”Faça algo bonito enquanto você pode. Não adormeça.” Não vamos adormecer. Vamos acordar. Acordar Adriele.

— Convido a todos os blogueiros de plantão a dar um Ctrl C + Ctrl V neste texto e saírem replicando essa iniciativa —

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sábado, 9 de abril de 2011

Há 41 anos, o fim de um novo começo...

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O fim já havia se insinuado há pouco mais de um ano. Naquela típica quinta-feira londrina, em 30 de janeiro de 69, The Beatles subiriam ao terraço da Apple e fariam, de improviso, a última apresentação de sua carreira. Insrtumentos plugados, breve repasse no som, e Get Back soou melancólica na tarde fria...

O clima era tenso. A gravação do White Album, de 68, fora marcada pela falta de unidade da banda. Brian Epstein havia falecido em 67, a escolha do novo empresário, Allen Klein, motivaria sérias discordâncias. George e Ringo estavam insatisfeitos, Paul e Lennon não se entendiam. Sem falar no desconforto causado pela presença constante de Yoko Ono nos ensaios e gravações, o que lhe renderia (injustamente) o rótulo de pivô da separação. Na verdade, há muito já havia ressentimentos, desconfianças, desavenças, inseguranças mútuas, depois de quase uma década de criativa e revolucionária parceria e estrondoso sucesso.

Pouco mais de um ano depois da lendária apresentação, em 9 10 de abril de 1970, Paul McCartney anunciaria oficialmente a dissolução da banda que sobrevivera há pouco mais de sete anos (com a formação clássica). Mas foram sete anos intensos, sete anos que abalaram a música...

The Beatles deixaram uma influência indelével. Rara a banda pop, ou pop-rock, ou das tantas vertentes do rock, que não os cite como influência. Como raro é o sujeito, seja de qualquer extrato social, faixa etária, sexo, raça, cor, crença, que não reconheça ao menos um acorde de ao menos uma de suas melodias, que foram regravadas, remasterizadas, recicladas, vertidas, sampleadas, reaproveitadas e cantaroladas pelos quatro cantos do planeta.

Certo é que, depois daquele dia, e embora estivesse ainda por ser lançado o penúltimo álbum gravado, Let it Be (o último foi Abbey Road, lançado no final de 69), não haveria mais o quarteto The Beatles. A partir daquele dia seriam quatro músicos independentes e um sonho... (que se desfaria dez anos depois com a morte trágica de Lennon).

Mas o legado ficou, e permanece até hoje. Em toda aquela década dos 60, cujo ocaso se fez marcar pelo fim oficial da maior banda de todos os tempos, um novo começo se anunciava para a música popular. Afinal, é impossível não perguntar: o que seria da música sem eles?...

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sexta-feira, 8 de abril de 2011

O Destino Manifesto

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Esta pintura de fins do século XIX, chamada de Progresso Americano, é uma representação alegórica do Destino Manifesto. Uma mulher de vestes angelicais carrega a luz da "civilização" e guia os colonizadores enquanto prende cabos telegráficos e afugenta índios e animais selvagens.

O Destino Manifesto é a expressão que se refere à crença – dos próprios norte-americanos – de que o povo dos Estados Unidos seria eleito por deus para o comando do mundo. Com base nessa “verdade”, a política expansionista do século XIX e a política imperialista da centúria seguinte seriam apenas o cumprimento da vontade divina – a expansão e domínio, segundo a crença, não seriam apenas boas, mas também óbvias (manifesto) e inevitáveis (destino).

A expressão foi usada pela primeira vez por John O’Sullivan em um ensaio entitulado Annexation, publicado na revista Democratic Review, no qual o jornalista exigia a anexação da República do Texas, recentemente separada do México. O'Sullivan escreveu:

"Nosso destino manifesto atribuido pela Providência Divina para cobrir o continente para o livre desenvolvimento de nossa raça que se multiplica aos milhões anualmente."

Governo e mídia daquele país usaram explicitamente as doutrinas do Destino Manifesto na primeira metadade do século XIX, notadamente no período de anexação territorial de diversos estados às treze colônias originais, culminando com a compra de Gasden, em 1853, que determinou os atuais limites do país. O uso formal e oficial da doutrina foi abandonado até o final da década de 1880, quando passou a ser usada novamente por alguns políticos como justificativa para o expansionismo fora do continente americano.

Embora manifesta e explicitamente não se empregue mais tal aberração doutrinária desde então, o uso da ideologia do Destino Manifesto pode ter influenciado fortemente as ideologias e doutrinas imperialistas do país – vide 2ª Guerra Mundial, Guerra da Coréia, Vietnãm, Afeganistão, Iraque (Egito?, Líbia?...).

Observe-se este trecho do discurso de posse do presidente James Buchanan, em 1857:

"A expansão dos Estados Unidos sobre o continente americano, desde o Ártico até a América do Sul, é o destino de nossa raça (...) e nada pode detê-la".

Note o reforço da velha idéia – apesar de uma diferença sutil e retórica – num trecho de discurso proferido pelo general Colin Powell, secretário de Estado do governo Bush, em 2004:


"O nosso objetivo com a Alca é garantir para as empresas norte-americanas o controle de um território que vai do Polo Ártico até a Antártida"...
Desde então, lá se vão sete anos... Colin Powell passou, a era Bush passou. Hoje vive-se nos EUA a era Obama. Alguma novidade houve, mas a federação americana do norte continua a mesma. Ele pode ter “cara de baiano”, mas continua sendo norte-americano...
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Com ilustração e informações da Wikipedia