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segunda-feira, 30 de maio de 2011

Simbolismo. E um poema

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Simbolismo é o movimento artístico literário que marca o fim do Século XIX. Reage ao Parnasianismo e ao Realismo pela via da interpretação subjetiva do mundo, pelo uso dos símbolos e pela percepção transcendental da realidade.

(É, portanto, primo-irmão do Impressionismo)

Para o Simbolista, não importa a ‘tradução’ do real, mas a combinação subjetiva entre sentimento e pensamento, com o uso de figuras de linguagem e formas próprias, regidas por leis próprias - na intuição do artista está o verdadeiro valor da obra de arte.

(Ars gratia artis?)

Alphonsus de Guimarães e Cruz e Souza são expoentes do Simbolismo no Brasil; na França, berço do movimento, destacam-se Verlaine, Rimbaud e Mallarmé.

A sextilha a seguir procura manifestar, pobre e sinteticamente, o ensejo da criação simbolista, quando ao poeta apetece cometê-la.

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Inexprimivível


Me assopra o sopro deste signo simbólico
(é sinestésico, é místico, alegórico)
Que em mim se evola desde as brumas oitocentas
(são nebulosas, vaporosas, pardacentas...)
A inexpressar do sentimento algum contorno
Inexprimível, impresso em pensamento morno.

Marcello Cabral

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(do Barro do Sonho, em vias de extinção)

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Dual

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"Se você matar meus demônios pode ser que meus anjos morram também" (Tenesse Williams)
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(resgatado do barro do sonho)

terça-feira, 24 de maio de 2011

"Rakudianai", os relatos de um torturado

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"No livro III da Eneida, Eneias encontra um grego perdido no país dos monstros ciclopes. Abandonado por Ulisses e seus companheiros, o grego, desesperado, implora aos troianos que o acolham e o levem embora. Narra com horror a forma pela qual o monstro de um só olho mata os humanos e tritura seus ossos na sua caverna. O grego perdido confessa sua participação na guerra, mesmo sabendo que os troianos poderiam matá-lo por conta disto. Se eu tiver que morrer, diz ele, tudo o que peço é que minha morte venha por mãos humanas.

Aquele grego não conhecia os torturadores do século XX."

Pérsio Arida

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Pérsio Arida é um dos "notáveis" do neoliberalismo brasileiro.

Foi um dos idealizadores do Plano Cruzado (ainda no governo Sarney) e do Plano Real; foi artífice da desestatização e comandante das privatizações durante o governo FHC. Traz ainda no currículo a nódoa de ter sido sócio de Daniel Dantas no Banco Opportunity, depois que deixou a presidência do Banco Central.

Pois bem, neste momento, nada disso interessa.

Interessa é que Pérsio, como tantos outros brasileiros, lutou contra a ditadura militar, foi perseguido, preso e torturado. Calou-se sobre esse tenebroso episódio durante décadas; agora, talvez pelo distanciamento temporal que lhe atenua o terror ante os fantasmas do passado, conta a sua história.

Trata-se de um longo relato...

Mas é também um relato lúcido e sereno. E também é, presume-se, leal aos fatos (naturalmente que na medida da fidelidade da memória). E é, sobretudo e finalmente, desprovido de autocomiseração ou revanchismo, o que reforça sua importância como documento histórico.

Eis, penso eu, argumentos bastantes a interceder pela sua leitura.
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Rakudianai

A política, a prisão, o encontro com o crocodilo, o julgamento e meu pai: lembranças de quarenta anos atrás
por Persio Arida

Era 1970 e eu tinha 18 anos. Fiquei preso por vários meses e fui processado na Justiça Militar por crimes contra a segurança nacional. Uma história pouco original: fui um entre tantos jovens movidos pelos ideais de um mundo melhor que a revolução parecia oferecer.

Por muitos anos deixei esse capítulo de minha vida adormecido. Mas opassado nunca está definitivamente concluído, age sem que o saibamos, ambíguo e esfinge. Há momentos em que desaparece, como se só importasse o cotidiano atribulado. Mas logo reaparece, como uma sombra que se projeta sobre o presente. E nós o interpretamos continuamente, temos que decifrá-lo repetidas vezes para restituir coerência e identidade à nossa história.

Quando pequeno, meus avós contavam episódios de suas vidas. Era uma maneira de me fazer apreender suas raízes e torná-las minhas também.Um fugira do Líbano, escondido em um navio, apavorado com a repressão dos turcos depois de uma revolta fracassada. Parou no Rio de Janeiro e se casou com uma italiana que conheceu na rua da Alfândega – com quem por muito tempo não conseguiu trocar nenhuma palavra. Outro contava de sua ida para o Egito, das caravanas de camelos, do sol do deserto que marcara o seu corpo para sempre, e depois sobre as carroças no interior da Austrália. Eu os ouvia embevecido, querendo mais e mais detalhes, pedindo que recontassem inúmeras vezes passagens heroicas ou engraçadas, fascinado pelo inusitado e pelos acasos.

Foi inspirado no exemplo deles que decidi escrever esse relato, que dedico a meus pais. Escrever, e não contar. Meus avós, que falavam mal o português e o escreveriam pior ainda, não tinham essa alternativa. A deficiência linguística não lhes era um grande entrave. Contavam aventuras em mundos exóticos, e bastava traçar em grandes linhas o cenário para que minha imaginação de criança preenchesse os espaços vazios.

Eu nada tenho de exótico para contar. Não trato de aventuras e sim de sentimentos. Mas há aqui, no limite do que me é possível, um exercício radical de sinceridade. Não busco reconstruir a história a partir de uma perspectiva engrandecedora, como ocorre em tantos escritos autobiográficos, nem menosprezo o impacto dos momentos difíceis.

As memórias são lábeis, cada visita ao passado altera a frágil composição do terreno em que estão baseadas. E quando os sentimentos surgem, por milagre, no vigor original, não passam de afrescos preservados debaixo da terra, cujas cores vívidas se esmaecem no ar do presente. Daí minha escolha por um mosaico de fragmentos, flagrantes de emoção justapostos, longe da costura coerente que, tantas vezes, dá vida à ilusão de um processo ordenado.
(...)

(continue lendo aqui)
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domingo, 22 de maio de 2011

Amanda Gurgel no Domingão do Faustão

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A entrevista concedida pela professora Amanda Gurgel ao Fausto Silva (e ela deixa claro, e eu concordo, que se o espaço foi disponibilizado - seja ele qual for - deve ser aproveitado), sugere algumas impressões.

A professora é muito articulada, mas além disso tem a coragem necessária para exercitar a sua oratória seja onde for e na frente de quem quer que seja (isso já fora provado no episódio da Assembléia Legislativa do Rio Grande do Norte).

Não se percebe afetação ou vaidade intelectual, sua argumentação é simples, embora eficaz; das outras vaidades também não se nota, ao menos não em demasia – afinal, nenhum indivíduo dessa curiosa espécie chamada “humana” está livre desse traço.

Parece não haver pretensões ilegítimas, apenas a pretensão da luta por salários mais dignos e melhores condições de trabalho – se há pretensões políticas, estas não podem ser chamadas, a priori, de ilegítimas.

Não há emoção exacerbada, tampouco presumida; pelo menos não do tipo piegas que poderia contaminar o foco da questão, o que é comum acontecer quando um tema qualquer atinge o patamar da visibilidade nacional.

Há clareza de raciocínio; um raciocínio, aliás, estendido sobre uma linha muito bem definida na qual ela desenvolve sua retórica, que eu me atrevo a assim parafrasear: "se sou articulada e arrojada, eu me disponho a ser a voz da categoria na nossa luta, que é justa, digna e urgente".

Em tempo: tanto a visibilidade alcançada pelo episódio na AL-RN quanto a rápida ascenção ascensão da tag #dezporcentodopibja (sugerida pela professora como reivindicação de aumento dos investimentos em educação) ao topo dos trends no Twitter, demonstram o poder da Web.  

Confira a entrevista:




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sexta-feira, 20 de maio de 2011

"Por quê?..."



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"E então, pergunto, por que esta vida?

De pão e horas moídas?"


Versos de 'Poema', de Renata Pallotini
Mais sobre a autora, aqui.

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(migrado do Barro do Sonho)

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Sobre verdades

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'O julgamento de Giordano Bruno pela inquisição romana'
(Bronze de Ettore Ferrari, Campo de Fiori, Roma )

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"Toda verdade passa por três estágios.
No primeiro, ela é ridicularizada.
No segundo, é rejeitada com violência.
No terceiro, é aceita como evidente por si própria."
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Sapere aude

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Trazido do meu outro blog, em vias de extinção

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A História que conhecemos é resultado da insidiosa conspiração dos vencedores e da subtração da versão dos vencidos, perdida para sempre no rastro da própria derrota.
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A dúvida é uma grande virtude, moral e intelectual.
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Liberdade significa aceitar exageros, como o exagero de achar natural cada um pensar como bem quiser e interpretar a vida e seus fenômenos conforme seu próprio entendimento.
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A experiência socialista fracassou; a frivolidade neoliberal que proclamava o fim da história, também fracassou. A história sobrevive, e a violência continua sendo sua parteira.
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O secularismo é o iluminismo do Século XXI, um projeto de tolerância, de convivência e de aventura do espírito.
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O indivíduo é o centro do mundo – centro instável, incerto, hesitante, na medida justa, vulnerável, porque humana.
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Paráfrases e frases inspiradas em O deus exilado, de Marilia Fiorillo.
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terça-feira, 17 de maio de 2011

Do Barro para o Diabo

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Decidi desativar meu outro blog.
Vou trazendo pra cá, aos poucos, o que tem lá de mais relevante (ou menos irrelevante).
Por ora, este poeminha metido a besta.

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Do pó ao pó


Nasci do pó fragmentado do Universo,
Sou hausto fraco, um respirar, sopro disperso
Na multidão dos singulares elementos;
Sou cisco atávico: pretérito-presente,
Mínima mônada inextensa e consciente
Da limitada inextensão do pensamento

Eu sou genético, biofísico, etológico,
Arrebatado, pelo espírito anagógico,
Da natureza que destrói o que gerou...
Descenso hálito de um canto volitivo:
O canto triste desse pássaro cativo
Encarcerado na gaiola do que eu sou


Qual filopluma bafejada pelo vento
Sobre um infinito oceano, eu me acalento
Na brevidade da existência temporal,
Se como a efêmera a voar por sobre as águas
Que servirá de refeição para as omáguas
Serei eu mesmo o alimento exicial...

E o pulso atômico conduz-me em marcação
Ao cadafalso inelutável da extinção,
Retesa a corda que produz a liberdade
Dos carboníferos grilhões moleculares...
Agora eu sou, a transitar por estes ares,
Como a estática do ar pré-tempestade
(Marcello Cabral)
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domingo, 15 de maio de 2011

Poeta convidado - "Apenas mais um"

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Apenas mais um
                                 Lucas Souza *

Eu sou só mais uma pessoa
neste mundo tão desconhecido.
Apenas mais um qualquer,
tentando deixar marcas hoje
para ser lembrado amanhã.

Apenas mais um na multidão,
tentando se diferenciar dos outros
com um sorriso simples entre os tristes,
com palavras amigas entre aqueles;
aqueles onde a esperança já nao habita mais.

Apenas mais uma criança disfarçada
se importando tanto com os outros,
e se esquecendo de si mesmo.
Tentando alegrar e cuidar de todos,
e deixando de lado sua própria felicidade.

Apenas mais um aproveitando a vida
pois sabe que aqui nesse mundo
só se vive uma vez.
EU sou apenas mais um,
assim como você ...

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final alternativo:

Você pode me julgar como quiser;
se sou feio ou bonito, alto ou baixo,
se sou divertido ou entendiante, gordo ou magro,
na verdade, nao importa.
Só saiba que é melhor estar comigo, do que contra a mim.

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* Lucas Souza é aluno do 9º ano fundamental, tem 14 anos de idade, e é meu filho. ☺
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terça-feira, 10 de maio de 2011

Valentin

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Esses hermanos não param de surpreender...

Quer no campo dos direitos humanos e civis (punição dos generais da ditadura; união civil entre homossexuais integralmente reconhecida) quer na área da cultura (recente proposta do governo de instituir pagamento de pensão a escritores) eles nos surpreendem.

Inveja santa deles...

Menos no futebol, claro!

Com o cinema argentino não é diferente (escrevi aqui sobre). Agora, a deliciosa surpresa é Valentin, do diretor Alejandro Agresti - que, a propósito, está filmando Dictablanda (sugestivo, não?..), lançamento previsto para 2012.

Em sua simplicidade, Valentin é um filme belíssimo! Comovente, do primeiro ao último instante.

O pequeno pibe Valentin (interpretado, aliás, por um garoto que... ah, você verá!) narra eventos da sua vida cotidiana sob a sua percepção de menino perceptívo e espirituoso, mas solitário. Às vezes trágica, às vezes cômica, mas sempre sensível, a narrativa se constrói andante mosso, como o encadear de pequenas peças de pura poesia.

Todo o filme é pródigo de situações memoráveis, quer pela beleza estética, quer pela carga de emoção. Numa dessas passagens o tio leva o garoto à missa. O celebrante é um padre jovem e progressista, por isso mesmo admirado por uns, criticado por outros. Durante o sermão, o sacerdote faz referência a um então recente episódio político muito relevante para a América Latina. Apesar de ligeiramente à margem da comovente história de Valentin, é o trecho que escolho para transcrever aqui:

Hoje, eu quero falar sobre a morte de um homem. Um médico argentino, de Córdoba. Um jovem de uma família respeitável, que se dedicou ao estudo das doenças e de suas curas. Doenças físicas, sofrimentos da carne, como aliviá-los, como combatê-los e como preveni-los.
Este jovem médico poderia ter ficado em sua cidade natal. Poderia ter tido uma vida digna, com o respeito das pessoas e todo o conforto. Em outras palavras, uma vida sem muitas dificuldades.
Ele provavelmente se casaria e teria filhos. E seria capaz de proporcionar a eles tudo de bom. Ele poderia ter desfrutado disso, poderia vê-los crescer e ir para a universidade, como ele próprio fez, para depois desempenhar um papel útil na sociedade.
Mas não.
O nome desse rapaz era Ernesto "Che" Guevara.
Poucos dias atrás, ele foi brutalmente assassinado nas selvas da Bolívia, porque não era suficiente para ele apenas viver em paz... E seguir o caminho fácil que a vida havia lhe concedido (neste momento, algumas pessoas se levantam para deixar a igreja).
Estou falando de um ser humano normal que acreditava em um ideal, acreditava que a injustiça pode ser derrotada (outros se levantam).
Por favor, não saiam! Não saiam, pelo menos antes que vocês tenham perguntado a si mesmos, com toda a sinceridade:
Quem de vocês daria, não toda sua vida, mas apenas um ano... Ou mesmo apenas um dia, por um ideal, o propósito pelo qual Che deu tudo o que tinha?...
(tradução livre do blog)

Pois bem, esse foi um aperitivo. A história do pequeno Valentin tem muito mais. O blog recomenda; e garante que, pelo menos a maioria, ela conduzirá do riso ao choro, ou vice-versa, ou a uma mistura de ambos, no breve intervalo de vinte e quatro quadros...
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segunda-feira, 9 de maio de 2011

Quem é esse Pessoa?

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Do blog Livros Abertos, um registro de insatisfação ante o uso leviano e vulgar que se faz da obra de Fernando Pessoa sob a forma de "citações" em sites duvidosos, e-mails e redes sociais (aqui o artigo completo).
Compartilho o desabafo.
E destaco referência feita, no ensaio, à obra mais representativa do poeta, escrita por seu heteronômio mais fiel. O Livro do Desassossego*, pródigo em citações e excertos, empresta alguns deles ao artigo.
Acrescento os que se seguem (e com garantia de origem):

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Haja ou não haja deuses, deles somos servos. (trecho 21, página 56)

Passar dos fantasmas da fé para os espectros da razão é somente ser mudado de cela. A arte, se nos liberta dos manipansos assentes e abstratos, também nos liberta das idéias generosas e das preocupações sócias, manipansos também. (trecho 34, página 66)

Sinto-me às vezes tocado, não sei porquê, de um prenúncio de morte... Ou seja, uma vaga doença, que não se materializa em dor e por isso tende a espiritualizar-se em fim, ou seja, um cansaço que quer um sono tão profundo que o dormir não lhe basta (...).
Considero então que coisa é esta que chamamos de morte. Não quero dizer o mistério da morte, que não penetro, mas a sensação física de cessar de viver. (...)
A mim, quando vejo um morto, a morte parece-me uma partida. O cadáver dá-me a impressão de um trajo que se deixou. Alguém se foi embora e não precisou levar aquele fato único que vestia. (Trecho 40, página 71)

Vivo sempre no presente. O futuro, não o conheço. O passado, já o não tenho. Pesa-me um como a possibilidade de tudo, ou outro, como a realidade do nada. Não tenho esperanças nem saudades. (...) Nunca fui senão um vestígio e um simulacro de mim. O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este, há um virar de página e a história continua, mas não o texto.
Breve sombra escura de uma árvore citadina, leve som de água caindo no tanque triste, verde relva regular – jardim público ao quase crepúsculo -, sois, nesse momento, o universo inteiro para mim, pois sois o conteúdo pleno da minha sensação consciente. (Trecho 100, página 129)

Escrever é esquecer. A literatura é maneira mais agradável de ignorar a vida. (trecho 116, página 140)

Tudo quanto o homem exprime é uma nota à margem de um texto apagado de todo. Mais ou menos, pelo sentido da nota, tiramos o sentido que havia de ser o do texto; mas fica sempre uma dúvida, e os sentidos possíveis são muitos. (trecho 148, página 164)

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(*) PESSOA, Fernando. Livro do desassossego : composto por Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa. Companhia de Bolso, 1ª reimpressão, São Paulo, 2006.
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domingo, 8 de maio de 2011

Analogia dos opostos

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Escher
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Entre o amor e a indiferença
Entre o ódio e a compaixão
Entre a incerteza e a crença
Entre fé e religião

Entre a saúde e a doença
Entre a frieza e a paixão
Entre o perdão e a ofensa
Entre a fuga e a prisão

Entre o pródigo e o avaro
Entre o Nietzsche e o Platão
Entre o ameno e o amaro
Entre o Apolo e o Plutão

Entre o repouso e a guerra
Entre a lei e a confusão
Entre o oceano e a terra
Entre a heroína e o vilão

Entre o sagrado e o profano
Entre o beato e o bufão
Entre o elevado e o mundano
Entre o contato e a aversão

Entre o azar e a sorte
Entre o ofício e o ócio
Entre o sudeste e o norte
Entre o feroz e o dócil

Entre o vivente e a morte
Entre o cruento e o clemente
Entre o indefeso e o forte
Entre o covarde e o valente

Entre o reto e o tortuoso
Entre o solene e o burlesco
Entre o manso e o belicoso
Entre o divino e o dantesco

Do dramático à comédia
Do patético ao discreto
Do satírico à tragédia
Do alegórico ao concreto

Do guerreiro ao pastoril
Do rústico ao citadino
Do rapineiro ao pueril
Do trêfego ao campesino

Da vã derrota à vitória
Da certeza ao pessimismo
Do velho mito à História
Da vanguarda ao classicismo

Da ordem ao belo caos
Do sonho à realidade
Dos justos aos ledos maus
Da fama à privacidade

Do equilíbrio à histeria
Do poeta ao histrião
Do silêncio à euforia
Do convício à exaltação

Da verdade à hipocrisia
Da soberba à humilhação
Da ecnéfia à calmaria
Da dor à satisfação

Do reles vício à virtude
Da ciência à execução
Do fácil à vicissitude
Da opulência à servidão

Do liberto ao cativo
Da dúvida à decisão
Do detido ao fugitivo
Do domínio à escravidão

Desde a fútil sapiência
À plena Iluminação
Desde a estúpida demência
À racionável Razão

Da tola unanimidade
À audaciosa opinião
Desde a falsa caridade
Á verdadeira ação

Desde a vil inconseqüência
À viril ponderação
Desde a fácil negligência
À difícil aplicação

Da fútil frivolidade
Até a circunspecção
Da séria sinceridade
Até a dissimulação

Desde o nobre celibato
À reles concupiscência
Do intangível abstrato
À concreta existência

Da galga mediocridade
Até o fecundo talento
Da superficialidade
Até o profundo acalento

Desde o inefável prazer
Ao imenso sofrimento
Da intensa dor de ser
Ao inenarrável contento

Da morna tranqüilidade
Ao corte frio da navalha
Da inevitável vaidade
À inexorável mortalha

Da espúria sujeição
À bravia rebelião
Da fúria capitalista
À utopia socialista

Do neoclássico Arcadismo
Ao hodierno Modernismo
Da parnasiana eufonia
À romântica alogia

Da borda do precipício
Ao sublime sacrifício
Da horda devastadora
À índole construtora

Da bulhenta multidão
À silente solidão
Da preguiçosa indolência
À engenhosa ciência

Do inexorável infinito
Ao limitado restrito
Do imponderável universo
Ao malogrado reverso

Da sintônica harmonia
À semântica anarquia
Da estóica complacência
À heróica resistência

Da fogueira primordial
Às escórias do final
Do fato da criação
Ao ato de destruição

Do alvissareiro calor
Ao derradeiro estertor
Da primeira luz do dia
À infalível agonia...

...aí eu estou
...
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sexta-feira, 6 de maio de 2011

Era uma vez...

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imagem daqui
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Era uma vez, vejam vocês,
Duas pessoas que se amavam
E se respeitavam, e se cuidavam
E se atendiam nas coisas importantes
...e nas desimportantes também


Mas o monstro, um tal Leviatã,
Não deixava que elas se amassem
...completamente
Nem que fossem felizes
...completamente
Porque essas duas pessoas, vejam vocês,
Não podiam o que as outras pessoas podiam
Só porque
...tinham coisinhas iguais!


Mas aí veio o moço
Um sujeito baixinho, de toga,
Com carinha de conto de fadas
E o moço fez uma poesia...
E o Leviatã ficou bonzinho
E deixou que as duas pessoas fossem felizes


E isso foi bom para o mundo
Porque quanto mais pessoas felizes no mundo
Mais feliz o mundo fica


E você vive nele, não é?...

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terça-feira, 3 de maio de 2011

"Ímpio", impressões de leitura

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O tema é polêmico; a proposta, intrigante. Título e capa são sugestivos, de cores intensas. Li o prólogo (gentileza do autor, que enviou por e-mail) e gostei da forma. Tudo isso, combinado à minha própria história, gerou expectativa (a melhor maneira de se decepcionar, dizem por aí...).

A expectativa para a leitura de Ímpio, o evangelho de um ateu (*) existia, portanto. Mas era, como geralmente se espera de um autor (para mim) desconhecido, apenas a expectativa de uma leitura razoavelmente boa. Talvez, quem sabe, pudesse até reforçar minha crítica a “essa coisa de religião...” Talvez até contribuísse com algum elemento novo para meus argumentos agnósticos (ou ateístas?...) Mas a expectativa era, como ali está, de uma boa leitura. Ponto.

Foi muito mais que isso... Tanto que aqui estou, digitando estas mal traçadas.

A exemplo do autor, também fui desde pequeno adestrado na religião; diferente dele, meu adestramento ocorreu na igreja católica – para mim, os esquisitos, os hereges, a “ameaça”, eram os crentes. Como ele, também não entendia porque as coisas deveriam ser como eram, tampouco aceitava de bom grado determinismos como “deus quis”, “deus sabe o que faz”, “os desígnios de deus são imperscrutáveis...” Eu questionava, e as evasivas me faziam questionar cada vez mais.

Mas toda essa experiência “católica” ficaria relegada ao lábil plano da memória, apenas mais um dos afrescos etéreos do passado, trazidos vaga e ocasionalmente ao presente com suas cores já muito esmaecidas.

Se na meninice meu relacionamento com as coisas da fé era menos que morno, e depois gelaria de vez no frigobar do catolicismo, haveria um tempo, anos depois, de uma experiência mais intensa (e fugaz), como crente pentecostal. A intensidade era tamanha que, ao cabo da breve experiência, eu seria catapultado para bem longe do fervor religioso, como o incauto que a força centrífuga arremessa de um carrossel desgovernado. Meu lapso de crente pentecostal me converteria do catolicismo não praticante ao secularismo – não praticante; e, depois de algum comodismo, a uma postura cética e crítica dos dogmas, doutrinas, morais e preceitos de cunho religioso, sobretudo cristão (meu obrigado, portanto, a Igreja Batista Central de Brasília).

Todavia, contra todos os ditames da sensatez e da razão, questões subliminares insistem em permanecer. Num descuido, o ser pensante se percebe surpreendido por perguntas tolas – para as quais, aliás, há respostas sempre razoáveis, mas que parecem embotadas por uma névoa irracional, uma espécie de turbidez causada talvez por um resquício de ainda “querer crer” (?). Um exemplo rápido: “Se há tantas religiões e deuses, por que o cristianismo foi (e é) tão poderoso, se não por força da intervenção divina?” Uma resposta razoável poderia ser: “estava na hora certa, no lugar certo”. Sim, há respostas sensatas. Sempre há, mas as tais questões subliminares às vezes “espicaçam como um moscardo...”

Pois bem, Ímpio, dentre outros atributos, oferece uma segurança adicional na formulação dessas respostas razoáveis. Ao mesmo tempo em que as “perguntas tolas”, além de mais raras, parecem se tornar ainda mais tolas. Não que haja no livro uma fórmula extraordinária, algum novo e irrefutável contra-argumento ao proselitismo vago e frouxo dos argumentos teístas (aliás, nunca haverá argumento sólido o bastante contra algo que “se sente”). O que há no livro é a realidade retinta, narrada pela franqueza e pela coragem de um sujeito que viveu as experiências do devaneio religioso e que possui os elementos necessários para interpretá-las a luz da razão – sem falar do talento para converter tudo isso em um texto de leitura muito agradável. Fábio Marton é, sobretudo, honesto no que escreve.

Sim, além de importante como referencial de lógica contra a perigosa fantasia da fé religiosa, e além do viés sociológico do tema, despretensiosa e ricamente explorado pelo autor, o livro é também de uma honestidade impermista. E é gostoso de ler. Tem seus impactos de emoção e sua ironia (importantíssimo), tem consistência narrativa e fluidez (difícil largar); tem, inclusive, passagens memoráveis, como o episódio de onanismo saborosamente narrado na página 71. E tem, por último, mas fundamental, sólido vigor conceitual, como o que se observa no trecho das páginas 186 a 191 – Como deixei de ser crente nº 5: respondendo a alguns filósofos cristãos (como esta, há outras inserções impressas em páginas negras, impacto adicional à percepção e às reformulações do leitor).

Como o propósito aqui não é fazer crítica literária (nem poderia, por absoluta falta de diploma), volto às singelas impressões de leitura. E uma delas, talvez a mais significativa, é que a leitura de Ímpio permitiu que eu voltasse a crer em deus...

Isso mesmo, e o deus no qual agora creio se chama “eu”. “Eu”, ao mesmo tempo completo e fragmento, um todo em si – existência – e parte de um tudo – universo; um entre milhões, bilhões de “eus” pretéritos, presentes ou futuros, cada um sofrendo sua dor e gozando seu prazer, todos livres do medo e libertos da culpa, senhores da própria consciência, fiéis à própria razão, leais à própria ética. Meu novo deus não é onisciente (aliás, sabe quase nada), tampouco onipotente (é muito fraco, até), mas é o único no qual eu posso razoavelmente confiar. Mas que, no final das contas, é pelo menos onipresente: está comigo o tempo todo, desde que eu assim o permita.

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(*) MARTON, Fábio. Ímpio : o evangelho de um ateu. São Paulo: LeYa, 2011.

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