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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

A seleção natural em dois parágrafos

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A seguir, dois trechos de A origem das espécies (1) que condensam de maneira exemplar a essência do fenômeno da seleção natural.

Pode-se dizer que a seleção natural esquadrinha todos os dias e todas as horas, em todo mundo, todas as variações, mesmo as mais insignificantes, rejeita o que é ruim, preserva e incorpora o que é bom e ocorre de maneira silenciosa e insensível, em todo momento e lugar nos quais a oportunidade se apresenta.
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A teoria da seleção natural é baseada na crença de que cada nova variedade – e, em última análise, cada nova espécie – é produzida e conservada por dispor de alguma vantagem sobre aquelas com as quais compete. E a consequente extinção das formas menos favorecidas é uma decorrência quase inevitável. 

A evolução e a extinção como a urdidura da trama da vida, as duas faces da mesma moeda, o Yin-yang do mundo orgânico.

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1. DARWIN, Charles. A Origem das espécies e a Seleção Natural. Curitiba : Hemus S.A., 2000.

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terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Ilha de Eldey, último refúgio do arau-gigante

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A Ilha de Eldey é uma pequena formação rochosa situada a cerca de 16 quilômetros a sudoeste da costa da Península Reykjanes, na Islândia, com área de aproximadamente 3 hectares e elevação de 77 metros.



Eldey é melancolicamente conhecida por ter sido o último refúgio do Arau-gigante (Pinguinus impennis), uma grande ave pescadora que viveu no Atlântico Norte até 1852, quando o último casal foi morto nos penhascos da ilha. Um dos homens que mataram os dois últimos exemplares da espécie assim descreveu o ato:

As rochas estavam cobertas de blackbirds (referindo-se a aves marinhas dos gêneros Uria e Cepphus) e lá havia os Geirfugles (nome islandês do arau-gigante) ... Eles caminharam lentamente. Jón Brandsson esgueirou-se com os braços abertos. A ave que Jón pegou foi para um canto, mas (a minha) estava indo para a borda do penhasco. Ela caminhava como um homem ... mas movia seus pés rapidamente. (Eu) a apanhei perto da beirada - um precipício de muitas braças de profundidade. Suas asas ficavam perto dos flancos - não apareciam. Peguei-a pelo pescoço e ela bateu as asas. Não emitiu nenhum grito. Eu a estrangulei. (1)

ILUSTRAÇÃO DE JOHN GOULD, PUBLICADO EM 1873 (fonte)


Nos penhascos de Eldey, encontra-se (ainda) um grande número espécies de aves marinhas.
Duas webcams no topo da ilha transmitem ao vivo do local (clique e observe enquanto é possível).

1. Fuller, ErrolThe Great Auk. Southborough, Kent, UK: Privately Published, 1999.
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Atualizações - 17/02/16

1. Os relatos sobre a caça do último casal de Arau-gigante dão conta de que o evento ocorrera em 1844; sua extinção foi oficialmente documentada em 1958 (cf. KOLBERT, Elizabeth. A sexta  extinção : uma história não natural ; tradução Mauro Pinheiro. - 1. ed. - Rio de Janeiro : Intrínseca, 2015. P. 74.)

2. As webcams instaladas na Ilha de Eldey não funcionaram muito bem. As aves que ali nidificam estranham a sua presença, então sobrevoam e defecam em cima delas. O guano de trinta mil casais de gansos-patola, ave mais comum na ilha, de alguma forma atrapalha seu funcionamento. (idem, p. 73)

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terça-feira, 13 de outubro de 2015

DEMOCRACIA pra você é grego?

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DEMOCRACIA não se limita à expressão da vontade da maioria, mas é também a defesa intransigente dos DIREITOS E GARANTIAS FUNDAMENTAIS DAS MINORIAS. Ainda que 99% da população de dado país seja contra o exercício de alguma liberdade fundamental, o Estado, se plenamente democrático, deve se posicionar contra a maioria e zelar pelo direito daqueles poucos e hipotéticos cidadãos.

25 de outubro, Dia da Democracia

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UTA Flight 772 Memorial

Sleepy Hollow


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quarta-feira, 17 de junho de 2015

Submissão

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Editorial, Folha de São Paulo, 14/06/2015
Submissão

Num futuro não muito distante, a aliança entre grupos políticos moderados e fundamentalistas religiosos obtém expressiva vitória eleitoral. Logo se estabelece, num país de tradições laicas e liberais, o predomínio da repressão, do obscurantismo e do preconceito.
Em "Submissão", polêmico livro de Michel Houellebecq recém-traduzido no Brasil, imagina-se o domínio de certa "Fraternidade Muçulmana" sobre o Estado francês.
O Brasil por certo não é a França retratada nesse romance, e se o fanatismo de alguns grupos traz perigo à sociedade ocidental, não há sinais de sua atividade em São Paulo, no Rio de Janeiro ou em Brasília.
Um espírito crescente de fundamentalismo se manifesta, contudo, em setores da sociedade brasileira –e, como nunca, o Congresso Nacional parece empenhado em refleti-lo, intensificá-lo e instrumentalizá-lo com fins demagógicos e de promoção pessoal.
O ativismo legislativo que se iniciou com a gestão de Eduardo Cunha (PMDB-RJ) na Câmara dos Deputados, e que Renan Calheiros (PMDB-AL) não deixou de seguir no Senado, possui o aspecto louvável de recuperar para o Parlamento um padrão de atuação e de debate por muito tempo sufocado.
Essa aparência de progresso institucional se acompanha, porém, dos mais visíveis sintomas de reacionarismo político, prepotência pessoal e intimidação ideológica.
Tornou-se rotineiro, nos debates do Congresso, que este ou aquele parlamentar invoque razões bíblicas para decisões que cumpre tratar com racionalidade e informação.
Condena-se a união homoafetiva, por exemplo, em nome de preceitos religiosos e de textos –não importa se a Bíblia ou o Corão– que podem muito bem ser obedecidos na esfera privada, mas pouco têm a contribuir para a coexistência entre indivíduos numa sociedade civilizada e plural.
Muitas religiões pregam a submissão da mulher ao homem, abominam o divórcio, estabelecem proibições a determinado tipo de alimento, condenam o consumo do álcool, reprovam o onanismo, legislam sobre o vestuário ou o corte de cabelo.
Nem por isso se pretende, nas sociedades ocidentais, adaptar o Código Penal a esse tipo de prescrições, dos quais muitos exemplos podem ser encontrados no texto bíblico. Sobretudo, não é função do Estado legislar sobre a vida privada.
Ainda assim, num evidente aceno a parcelas crescentes do eleitorado, uma verbiagem religiosa toma conta do Congresso.
Nos tempos de Eduardo Cunha, mais do que nunca a bancada evangélica se associa à bancada da bala para impor um modelo de sociedade mais repressivo, mais intolerante, mais preconceituoso do que tem sido a tradição constitucional brasileira.
O conservadorismo sem dúvida é forte no Brasil; a pena de morte, a redução da maioridade penal, a rejeição ao aborto e à liberação das drogas têm apoio em larga parcela da população –e diante de tais assuntos, naturalmente, cada pessoa tem o direito de se posicionar como lhe parecer melhor.
Mas nossa sociedade também é, felizmente, mais complexa do que pretendem os mais conservadores.
A tradição do sincretismo religioso, da liberalidade sexual, do bom humor, da convivência com pessoas vindas de todos os países e das mais diversas culturas, a prática do respeito, da cortesia e do perdão constituem elementos tão cultivados na identidade brasileira quanto o que possa haver –e indiscutivelmente há– de autoritário e violento em nosso cotidiano.
O debate entre essas forças contraditórias é constante e, a rigor, interminável. Não combina com o açodamento das decisões que, em campos diversos, têm sido tomadas na Câmara dos Deputados.
Seria equivocado criticar seu presidente por ter finalmente posto em votação algo que se arrastava há anos nos labirintos da Casa, como a reforma política. É inegável, entretanto, que Eduardo Cunha atropelou as próprias instâncias institucionais ao impor ideias como a do distritão na pauta de votações.
A toque de caixa, questões intrincadas como a do financiamento às campanhas eleitorais sofreram apreciações seguidas, e nada comprova mais a precipitação do processo do que o fato de que, em cerca de 24 horas, inverteram-se os resultados do plenário.
Uma espécie de furor sacrossanto, para o qual contribui em grande medida o interesse fisiológico de pressionar o Executivo, alastra-se para o Senado. No susto, acaba-se com a reeleição e se altera a duração dos mandatos políticos. O cidadão assiste a tudo sem sentir que foi consultado.
No meio dessa febre decisória, há espaço para que o Legislativo comece a transformar-se numa espécie de picadeiro pseudorreligioso, onde se encenam orações e onde se reprime, com gás pimenta, quem protesta contra leis penais duras e sabidamente ineficazes.
Setores políticos moderados se veem quase compelidos a conciliar-se com a virulência ideológica dos que consideram a defesa dos direitos humanos uma complacência diante do crime; dos que consideram a defesa do Estado laico uma agressão contra a fé; dos que consideram a racionalidade ocidental uma forma de subversão, e as conquistas do iluminismo uma espécie de conspiração diabólica.
Os inquisidores da irmandade evangélica, os demagogos da bala e da tortura avançam sobre a ordem democrática e sobre a cultura liberal do Estado; que, diante deles, não prevaleça a submissão.

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quinta-feira, 11 de junho de 2015

O Ovo da Serpente

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Ao longo da História, com raros e breves hiatos, o homem sempre foi um ser beligerante. Até o século XIX – e especialmente nele – a beligerância esteve de tal modo arraigada no assim chamado “mundo civilizado” que era quase impossível dissociá-lo, o "mundo civilizado", do fenômeno da guerra. Aquelas eram nações imperialistas, militarizadas, construídas pelo poder das armas. Aquele era um tempo em que se renegava o frágil e o sensível em detrimento do heroísmo e da força. Bismarcks, Víctor-Emanuéis, Napoleões-Terceiros, Romanovs, eram os corifeus de então.

Todavia, no seio do seu núcleo social, esse mesmo homem oitocentista cultivava a cortesia, o refinamento, o cavalheirismo, o galanteio. O século XIX é conhecido pelo espírito artístico e contemplativo dos seus notáveis. O sentimento de honradez, o rigor moral, as regras sociais, praticavam-se como valores inerentes à ética daquele homem, dito digno e culto (ainda que de modo superficial, dissimulado, hipócrita, no domínio das aparências).

O século XX, breve e sobressaltado, traria duas guerras de proporções inéditas. A reboque delas, a bomba H, a tecnologia, a imagética, o individualismo. Se por um lado o homem, receoso do próprio potencial destrutivo, procura reconhecer sua fragilidade, por outro lado ele se isola. Enquanto a revolução tecnológico-científica se consolida e o pós-guerra reinaugura o mundo, as novas guerras se travestem de “santas”, de "culturais", de "sociais". E já não estão restritas ao campo de batalha...


O “animal político” aristotélico, depois “racional” pelos cartesianos, converte-se em “animal assustado”. É um bicho acuado pelos próprios artifícios, ameaçado pelo próprio medo. O homem já não se reconhece no outro, seu igual, medida de si próprio. Ao contrário, o outro é a ameaça.

Ao isolamento segue-se o estranhamento; a este, a misantropia. Em tempos de individualismo e egoísmo viscerais, qualquer valoração da vida (especialmente a do outro) carece de elementos significadores. O banal é a palavra de ordem. A indiferença à alteridade se atrela ao isolamento. A empatia é o medo. Eis o “Ovo da Serpente” *, guardado e velado pela Serpente, cuja casca fina e diáfana exibe no interior... a Serpente que será parida.

Século XXI… Um menino de dez anos que será, possivelmente, tão longevo quanto os outros, certamente é precoce como nenhum. Quanto a estes tempos, quando a serpente já eclodiu, só se pode tergiversar... e ter fé no melhor acaso.
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O Ovo da Serpente é um filme de 1977 escrito e dirigido por Ingmar Bergman, estrelado por David Carradine e Liv Ullmann

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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Goteira

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A poesia é meu refúgio

Como não sou bom poeto

Tem goteira nesse teto

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sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Voa, Passarinho

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O apanhador de desperdícios


Uso a palavra para compor meus silêncios.
Desenho de Manoel de Barros

Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios


Manoel de Barros (1916-2014)

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