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terça-feira, 24 de maio de 2011

"Rakudianai", os relatos de um torturado

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"No livro III da Eneida, Eneias encontra um grego perdido no país dos monstros ciclopes. Abandonado por Ulisses e seus companheiros, o grego, desesperado, implora aos troianos que o acolham e o levem embora. Narra com horror a forma pela qual o monstro de um só olho mata os humanos e tritura seus ossos na sua caverna. O grego perdido confessa sua participação na guerra, mesmo sabendo que os troianos poderiam matá-lo por conta disto. Se eu tiver que morrer, diz ele, tudo o que peço é que minha morte venha por mãos humanas.

Aquele grego não conhecia os torturadores do século XX."

Pérsio Arida

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Pérsio Arida é um dos "notáveis" do neoliberalismo brasileiro.

Foi um dos idealizadores do Plano Cruzado (ainda no governo Sarney) e do Plano Real; foi artífice da desestatização e comandante das privatizações durante o governo FHC. Traz ainda no currículo a nódoa de ter sido sócio de Daniel Dantas no Banco Opportunity, depois que deixou a presidência do Banco Central.

Pois bem, neste momento, nada disso interessa.

Interessa é que Pérsio, como tantos outros brasileiros, lutou contra a ditadura militar, foi perseguido, preso e torturado. Calou-se sobre esse tenebroso episódio durante décadas; agora, talvez pelo distanciamento temporal que lhe atenua o terror ante os fantasmas do passado, conta a sua história.

Trata-se de um longo relato...

Mas é também um relato lúcido e sereno. E também é, presume-se, leal aos fatos (naturalmente que na medida da fidelidade da memória). E é, sobretudo e finalmente, desprovido de autocomiseração ou revanchismo, o que reforça sua importância como documento histórico.

Eis, penso eu, argumentos bastantes a interceder pela sua leitura.
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Rakudianai

A política, a prisão, o encontro com o crocodilo, o julgamento e meu pai: lembranças de quarenta anos atrás
por Persio Arida

Era 1970 e eu tinha 18 anos. Fiquei preso por vários meses e fui processado na Justiça Militar por crimes contra a segurança nacional. Uma história pouco original: fui um entre tantos jovens movidos pelos ideais de um mundo melhor que a revolução parecia oferecer.

Por muitos anos deixei esse capítulo de minha vida adormecido. Mas opassado nunca está definitivamente concluído, age sem que o saibamos, ambíguo e esfinge. Há momentos em que desaparece, como se só importasse o cotidiano atribulado. Mas logo reaparece, como uma sombra que se projeta sobre o presente. E nós o interpretamos continuamente, temos que decifrá-lo repetidas vezes para restituir coerência e identidade à nossa história.

Quando pequeno, meus avós contavam episódios de suas vidas. Era uma maneira de me fazer apreender suas raízes e torná-las minhas também.Um fugira do Líbano, escondido em um navio, apavorado com a repressão dos turcos depois de uma revolta fracassada. Parou no Rio de Janeiro e se casou com uma italiana que conheceu na rua da Alfândega – com quem por muito tempo não conseguiu trocar nenhuma palavra. Outro contava de sua ida para o Egito, das caravanas de camelos, do sol do deserto que marcara o seu corpo para sempre, e depois sobre as carroças no interior da Austrália. Eu os ouvia embevecido, querendo mais e mais detalhes, pedindo que recontassem inúmeras vezes passagens heroicas ou engraçadas, fascinado pelo inusitado e pelos acasos.

Foi inspirado no exemplo deles que decidi escrever esse relato, que dedico a meus pais. Escrever, e não contar. Meus avós, que falavam mal o português e o escreveriam pior ainda, não tinham essa alternativa. A deficiência linguística não lhes era um grande entrave. Contavam aventuras em mundos exóticos, e bastava traçar em grandes linhas o cenário para que minha imaginação de criança preenchesse os espaços vazios.

Eu nada tenho de exótico para contar. Não trato de aventuras e sim de sentimentos. Mas há aqui, no limite do que me é possível, um exercício radical de sinceridade. Não busco reconstruir a história a partir de uma perspectiva engrandecedora, como ocorre em tantos escritos autobiográficos, nem menosprezo o impacto dos momentos difíceis.

As memórias são lábeis, cada visita ao passado altera a frágil composição do terreno em que estão baseadas. E quando os sentimentos surgem, por milagre, no vigor original, não passam de afrescos preservados debaixo da terra, cujas cores vívidas se esmaecem no ar do presente. Daí minha escolha por um mosaico de fragmentos, flagrantes de emoção justapostos, longe da costura coerente que, tantas vezes, dá vida à ilusão de um processo ordenado.
(...)

(continue lendo aqui)
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Um comentário:

Anônimo disse...

e depois foi fazer o q fez: o torturado alia-se ao demo, o fhc, e mete no rabo do povo pelo resto dos tempos. fizeram pouco.