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terça-feira, 27 de março de 2012

Marcos Bagno em defesa do ENEM

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Charge: Marcelo Fávaro
 
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Em defesa do ENEM
Por Marcos Bagno

Mais de cinco milhões de estudantes brasileiros participaram do último ENEM. Para quem não sabe, (e para se ter uma ideia do que esses os representam), a população absoluta de muitos países (Dinamarca, Finlândia, Noruega, Zelândia, Uruguai, etc.) não chega a esse total. Isso quer dizer que se, por exemplo, cinco mil testes tivessem apresentado algum problema, seria apenas 0,1 por cento do universo de provas. Se fossem quinhentos mil, seriam 10 por cento. No entanto, em todo o histórico do ENEM, nunca em suas edições ocorreram tal número de falhas. Recentemente, numa escola do Ceará, 639 provas ficaram sob suspeita porque algum professor, cometendo um ato de absoluta desonestidade profissional, copiou os pré-testes que o MEC aplica aleatoriamente no país antes do exame oficial e que devem ser incinerados. Quem for bom de matemática (eu não sou) faça as contas e descubra o que são 639 num universo de 5 milhões. E ainda vem um procurador ávido por seus 15 segundos de fama pedindo a anulação de todo o exame. Haja!

O ENEM se apresenta hoje como uma excelente alternativa para a extinção dessa monstruosidade chamada vestibular. Nada justifica que uma pessoa, tendo concluído com sucesso o ensino médio, precise se submeter a uma maratona de testes estressantes para ter acesso ao ensino superior. Pior ainda, que alguém que vá, por exemplo, para um curso de Letras, tenha de fazer provas de Matemática, Química, Física e Biologia. A monstruosidade também está na indústria multimilionária que o vestibular criou ao longo de décadas e que fez ele perder qualquer razão de ser, se jamais teve alguma. Ainda que se alegue que o exame servia para aferir o que os estudantes tinham aprendido, o que surgiu na verdade foi uma preparação para o vestibular, uma distorsão absoluta dos supostos objetivos do exame. Com isso, os três escassos anos do ensino médio se tornaram simplesmente uma longa prévia da tortura psicológica que estaria por vir no final do terceiro ano. Fui matricular certa vez meus filhos recém-alfabetizados numa escola de classe média em São Paulo e perguntei à diretora qual era a linha educacional do estabelecimento. Ela respondeu sem titubear: "Aprovar nossos alunos no vestibular". Saí correndo de lá com as crianças.

O ENEM se configura como uma interessante ferramenta de avaliação do ensino médio e, ao contrário do vestibular, não tem como gerar uma indústria de cursinhos, apostilas etc. Sua metodologia rejeita as questões pontuais, conteudísticas, e apela muito mais para as habilidades cognitivas do candidato. Na prova de linguagem, por exemplo, nada de nomenclatura gramatical, análise sintática e outras idiotices do gênero, mas questões que tentam mobilizar o raciocínio lógico, a intuição linguística e a capacidade de leitura e interpretação de textos.

Agora, a perguntinha boba: por que a mídia faz tanto alarde quando ocorre alguma falha no ENEM? E a respostinha ainda mais boba: porque ela se entrega de corpo e alma ao lobby poderoso da indústria do vestibular. Essa indústria tem seu máximo representante no bilionário grupo Objetivo, espalhado por todo o território nacional, do qual surgiu outra excrescência, a Unip, que de universidade tem só o nome. Quem acha que Globo, Veja, Estadão e caterva poderiam resistir aos vestibudólares dessa indústria? Quem acha que nossa mídia vendida vai apoiar o que quer que seja que venha de um governo que tenta retirar das oligarquias seus bens mais preciosos?


Marcos Bagno é linguista, escritor e professor da UnB – www.marcosbagno.com.br

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(Da Revista Caros Amigos, nº 180/2012, página 6)
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